domingo, 10 de dezembro de 2017

O Transatlântico Lavras

            Minha terra natal não tem mar, nem praia, mas tem muitos Ipês e Escolas. Assim é conhecida Lavras, no sul de Minas, região montanhosa. Deve ser por isso, a falta do mar, que nos apossamos das praias capixabas, a 700 km de distância, especialmente Guarapari e Vila Velha. Época de veraneio nesses balneários..., só dá mineiro. Famílias inteiras com seus SUVs, Jeeps e outros carros se deslocam para lá e passam temporadas de férias em apartamentos próprios ou alugados. Mesmo os que se mudaram de Minas para o distante planalto central ainda revivem, por lá, aquele clima dos jovens dos anos da década de 1970. Com o passar do tempo vai-se a paixão pela estrada e a distancia é vencida por avião. Mas, a paixão pelo lugar continua a mesma e até parece que o fluxo dos interioranos das serras das alterosas aumentou naquelas praias. Ninguém se atreve a dizer que ali não é território dos mineiros. Muitos se aposentam e mudam-se em definitivo para lá. É o caso do amigo, colega de magistério na Universidade Federal de Lavas-UFLA, Hélio Corrêa. Estabeleceu-se por lá e vive a contemplar a bela terceira ponte e, literalmente, segundo informa sua filha, fica a ver e contar os navios que atracam e zarpam do porto de Vitória. Confesso que tenho inveja desse inusitado hobby, pois navio é um bichão enorme, fascinante e incomum para nós os mineiros do interior. Entrar em um navio é para os mineiros como “provar” a água salgada do mar para certificar-se que realmente é verdade, segundo contam os cariocas piadistas. Ver aquele grandão singrando suavemente as águas, suas antenas de radares girando no topo da ponte de comando, nos leva a imaginar quanta engenhosidade há ali dentro e quanta carga transporta, ou quantas vidas leva a bordo em viagens de passeio a negócios. Algumas vezes, quando em férias por lá, atravanquei o transito na avenida beira mar da cidade de Vitória. Estacionava o carro para ver a aproximação de um grande navio cargueiro. Outra vez, do alto do morro do Convento da Penha, contemplei a passagem de um grande navio cargueiro conduzido por um rebocador sob a bela Terceira Ponte. É um espetáculo digno para qualquer mineiro, de prender a respiração, pois a impressão que se tem, à distância, é que se pode bater facilmente nos pilares de sustentação do enorme vão da ponte de concreto.

            Há três anos, o ilustre colega, tomando seu chope e degustando uma peixada no Club Álvares Cabral, foi surpreendido pela passagem de um grande navio cargueiro que acabara de zarpar do porto de Vitória. Fotografou-o várias vezes, mais pela surpresa de seu nome, estampado na proa, em letras garrafais: Lavras. Agora, anos mais tarde, postou as fotos nas redes sociais e então bateu-me uma curiosidade, por que aquele nome? Haveria algum armador natural de Lavras? Um engenheiro naval, alguma homenagem à cidade, perguntei nas redes sociais. Ninguém soube responder, nem mesmo o autor das fotos. Alguém confirmou que o avistara em outra ocasião na Baía de Guanabara. Nada mais.... Surpresa maior foi ter surgido, no dia seguinte, a madrinha do navio Lavras, ninguém menos que a então primeira dama da cidade, Maria Lídia Fonseca, que além de prestar informações sobre o referido navio, postou mais fotos, do ano de 1989, ano em que a embarcação foi lançada ao mar pelos Estaleiros Verolme.

E assim, pudemos recompor a história do navio Lavras. Tudo começou com o interesse do então prefeito de Lavras, João Batista Soares, em instalar um terminal da Petrobrás na cidade, ou melhor, no Terminal Ferroviário de Prudente, onde já havia infraestrutura mínima necessária ao empreendimento. Na ocasião a Petrobras tinha como presidente o ex-ministro da Marinha, Maximiano da Fonseca, amigo da cidade. Embora o ponto fosse estratégico para a instalação de um terminal de distribuição da Petrobras, não foi possível concretizar-se o projeto do então prefeito, João Batista. Mas, o nome da cidade e os laços de amizade e até familiares que ligavam o ministro Maximiano à Lavras não ficaram no esquecimento, pois sua filha era casada com um ilustre lavrense, Paulo Otávio, grande empresário do setor imobiliário aqui na capital federal. Decidiu o ministro prestar uma homenagem à cidade e sua gente, nomeando um dos grandes navios petroleiros com o nome de Lavras.

O navio tanque, produzido pelos Estaleiros Verolme, é um gigante. Foi a segunda unidade de uma série de três encomendados pelo armador Petróleo Brasileiro S.A. - Petrobrás/Frota Nacional de Petroleiros – Fronape para serem utilizados no transporte de produtos claros em rotas de cabotagem. Seu custo de construção foi aproximadamente US$ 40 milhões. Foi lançado ao mar no dia 09 de janeiro de 1989, em Angra dos Reis. Seu prefixo é PPSG e tem173, 00 metros de comprimento total, 27,50 metros de boca, 9,70 metros de calado e 14,30 metros de pontal. Sua capacidade de deslocamento é de 34.000 toneladas e transporta 29.400 toneladas de carga, em treze tanques. O motor de propulsão desse gigante é um Sulzer de 06 cilindros tipo 6RTA48´, de 7.751 bhp de potência, podendo se deslocar à velocidade de 14 nós.

Rever o nome de sua cidade natal num baita bichão singrando as águas do Atlântico deve ser mesmo uma emoção muito grande, como a experimentada pelo amigo que, por sorte, lembrou-se registrar com fotos aquele momento. Fez-me relembrar quando avistei a bandeira brasileira tremulando no mastro de um navio cargueiro no porto de Nova York. Emoção sem igual para quem, distante da pátria por longo tempo, contemplava ali, subitamente, o auriverde símbolo augusto da paz, cuja nobre presença à lembrança, a grandeza da Pátria nos traz! Assim cantávamos durante o hasteamento da bandeira, no pátio do Grupo Escolar Firmino Costa, desde os sete anos de idade. Maior ainda deve ter sido a emoção da jovem lavrense que, investida das funções de primeira da cidade, foi convidada a ser a madrinha de batismo daquele grande navio que ostenta o nome de Lavras. A cerimônia, iniciada com a quebra de uma garrafa de champanhe na proa do navio, é quase que obrigatória antes de sair para a sua primeira viagem. Trata-se de uma milenar tradição para proteger a embarcação dos perigos do mar, imprevisível e implacável. Conta a lenda que no batismo do Costa Concórdia, que naufragou em 13/01/2012, na costa da Toscana, na Itália, a garrafa de champanhe bateu no casco e voltou intacta. Já no caso do Titanic, a champanhe não chegou a tempo para o batismo. No navio Lavras, não só estourou-se a garrafa na proa da embarcação como ainda houve um tour por suas instalações, tudo regado a delicioso coquetel, quando então a madrinha e demais autoridades fizeram uso da palavra em alusão ao marcante empreendimento.

 Mas, afinal o que representa a escolha do nome de Lavras para aquele gigante petroleiro? Apenas um nome? Um lugar, uma cidade? Não apenas isso. Representa, acima de tudo, a homenagem à sua gente, à memória daqueles que souberam e sabem honrar a sua terra. Parabéns à madrinha, lavrense, Maria Lídia Fonseca, ao então prefeito João Batista Soares, ao empresário Paulo Otávio Pereira que mesmo distante no tempo e espaço, mantém viva a chama do amor à terra natal. Juntos, mas não necessariamente ao mesmo tempo, souberam e sabem representar a terra natal, em grau tão profundo e envolvente capaz de sensibilizar a outras pessoas que, gratificadas com a atenção, retribuem homenageando a cidade inteira – Lavras.

Tenho orgulho das raízes dessa terra, onde se respira a cultura, a educação e a arte de bem receber,  a Terra dos Ipês e das Escolas, conforme a batizaram os poetas. E ainda me aproveitei de seu nome para encabeçar as crônicas, casos e causos da cidade.


Brasília, 10 de dezembro de 2017


 
O imponente petroleiro “Lavras” singrando as águas do porto de Vitória rumo ao Atlântico.
Foto de Helio Correa

Convento da Penha, em Vila Velha, com vista voltada para a cidade de Vitória, foi fundado em 1558.         É o símbolo turístico da cidade. Fica no alto de um morro de 154m, cercado pela Mata Atlântica
Foto: Internet



Vista do alto do Convento da Penha a magnífica vista da cidade de Vitória. Apreciar a                                  passagem de um grande navio sob a ponte, escoltado e conduzido por rebocadores, é um                           espetáculo à parte que deixou o menino extasiado.
Foto: Internet



O baita navio petroleiro “Lavras” deixando o porto de Vitória.
Foto de Helio Correa




A primeira dama, maria Lídia Fonseca (de branco e à frente) subindo para o convés do navio                      petroleiro, já batizado com o nome de Lavras. Homenagem à terra de pessoas que bem a representam.
Foto: arquivos de Maria Lídia Fonseca



Solenidade de batismo do navio “Lavras”, em 09/01/ 1989. Estaleiros Verolme , em                                    Angra dos Reis. Maria Lidia Fonseca, primeira dama de Lavras, ao lado do                                                ministro Maximiano da Fonseca, então presidente da Petrobras.
Foto: arquivos de Maria Lídia Fonseca



Visita às instalações do navio. Solenidade de batismo da embarcação, e, janeiro de 1989.
A primeira dama, madrinha do navio acompanhada de amigas e o comandante do navio
Foto: arquivos de Maria Lídia Fonseca


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Um pesadelo em Paris - Depressão em viajante?







"Já passei por problemas oriundos dessa loucura.
 O estresse a que somos submetidos nos leva a
superar limites. E, às vezes, a não superá-los”.


Há quem imagine que a vida na estrada é cheia de glamour. E a vida na estrada, aqui entendido como hábito de se viajar constantemente, seja de carro, de avião ou outro meio. Quem não viaja frequentemente e só o faz raramente pensa que viagens frequentes são a 8ª maravilha do mundo. Conhecer lugares famosos, comida e atrações internacionais, gente diferente, tudo, mas tudo mesmo soa como novidade infindável. Mas não é! Para um artista que apresenta shows ou o executivo que viaja constantemente não é bem assim. A maioria das viagens é ralação mesmo, pura correria com agendas apertadas que exigem intensa mobilidade e atenção integral às missões a serem cumpridas. Ora, no mercado de trabalho o sucesso não vem por acaso e se você está e quer permanecer no ramo tem que fazer diferença. E a diferença mais eficaz é a dedicação com amor ao trabalho. Workaholic seria a palavra que melhor expressa esse conceito. E aí começam os problemas. Num ciclo vicioso passa-se a trabalhar mais, com plena dedicação de corpo e alma às atividades profissionais. As viagens passam a ser frequentes, sejam em busca de mercados ou proferindo palestras ou ainda executando e supervisionando os projetos em diferentes localidades. E como numa bola de neve, quanto mais se faz, mais aumenta a demanda, a procura pelo seu trabalho, a sua presença. Assim..., naturalmente chega-se ao estresse que entra pela porta aberta da sobrecarga excessiva de trabalho. Não foi diferente com o Menino das Lavras.


Naquela madrugada, de um frio dia de inverno em Paris, o Menino das Lavras acordou de um pesadelo, verdadeira crise de terror enquanto dormia. Não era a primeira vez que isso acontecia. Alguns anos antes, em São Francisco, na Califórnia, aconteceu o mesmo e que, ao final, acabou-se revelando como uma premonição de algo grave que acontecia em sua casa, no mesmo instante do pesadelo, a mais de 10 mil quilômetros de distância. Mas, agora é outra história, acontecida dez anos depois, do outo lado, no Atlântico e não no Pacífico como a primeira. Há mais perigos nas viagens do que se imagina. Geralmente se fala apenas dos riscos das viagens propriamente ditas, como assaltos e acidentes de carro e avião ou de navios. Nesse campo o Menino sofreu apenas dois acidentes de carro e três aéreos. Foram dois aviões nos E.U. A, o primeiro com pane hidráulica, desgovernado, mas conseguiu aterrissar num aeroporto maior, com tela de aço na cabeceira e espuma antifogo na pista. O segundo, com incêndio a bordo, também deu um ponta cabeça e conseguiu aterrissar em Las Vegas, interrompendo o voo de Chicago/San Franciso-California. O último desastre, o mais grave, aconteceu em Belo Horizonte, ferindo um pouco o Menino, quando um Boeing caiu ao tentar aterrissar sob tempestade, com turbina e asa quebradas, soltas pelo chão, espalhando todo combustível ao redor. Mas, além desses perigos, outros existem e quase nunca conhecidos pelo público ou nem mesmo pelos familiares. São inúmeros os transtornos psicológicos pelos quais passam os viajantes contumazes.

Os transtornos psicológicos durante as viagens já foram objeto de estudos e teses universitárias e centros de pesquisas. Uma recente pesquisa entre 500 profissionais, realizada pelo instituto britânico Help Musicians, revelou alguns dos males que as frequentes viagens podem causar.  Cerca de 60% têm depressão quando estão longe de casa e 75% dos entrevistados declararam sofrer de ansiedade crônica quando estão em viagem. 84% disseram, ainda, ter tido dificuldades de convívio com outras pessoas. E por que tão elevadas estatísticas? Simples, são horas e horas de voos, esperas infindáveis em aeroportos, translados, check in e check out em hotéis, restaurantes e muitas vezes jantares de serviço que se estendem até altas horas da noite. Isto sem contar o jet lag causado por diferentes fusos horários. Que tal sair de Brasília às 16:00 h, conexão em São Paulo às 23:00 h e chegar a Paris às 14:30h, incluindo-se o fuso de cinco horas? São 24 horas de viagem com pouco mais da metade do tempo, 13 horas nos dois trechos, dentro de aeronaves. E veja a loucura de se voar de Chicago para S.Francisco/Cal., saindo ao meio dia e chegando na “mesma hora”, ao meio dia e terá voado por quatro horas, sem escalas, igualando-se ao fuso horário! Logo ao desembarque entra-se num cab e vai-se direto a uma reunião, das 02 p.m, na Universidade de Berkeley, chega-se ao hotel depois das 20h, ou seja meia noite de Chicago, de onde você embarcou. Esse foi, verdadeiramente, um dia de 28 (vinte e oito) horas. Haja energia!


Não é fácil a rotina de um viajante quando se está a serviço. Muitas vezes entra numa reunião de trabalho logo na chegada do destino e, pior, com uso de outro idioma que não o materno (nos primeiros dias nosso cérebro ainda “fala” e pensa em português e só depois de uma semana passamos a pensar e falar fluentemente no outro idioma). É estressante ao extremo para o cérebro, pois exige-se atenção integral, redobrada e rapidez mental para se fazer a tradução simultânea, escutar diferente idioma, verter para o português e em seguida, rapidamente, traduzir sua resposta do português para o outro idioma. E haja cuidados com a pronúncia correta das palavras, por conta das diferenças de sons fonéticos em relação à língua mater. Certa vez o Menino discutiu com um motorista de taxi, pois respondeu-lhe repetidamente que “não conhecia e nem sabia aonde ficava a cidade de Reston”. Como pode um taxista de aeroporto não conhecer seu local de trabalho? Ainda não existia GPS, Wase, nem celular e por isso o Menino explicou-lhe duas, três vezes, os detalhes de distância, 20 milhas e até o quanto custaria, cerca de US$ 40 e ainda foi-lhe informado o roteiro, próximo ao Pentágono, o QG da Defesa Americana e da CIA, e..., nada! Indignado com a “ignorância profissional”, o Menino mandou parar o carro antes de atravessar a ponte sobre o rio Potomac, logo depois do Aeroporto Nacional de Washington, de onde tinham acabado de sair. Desceu, pediu-lhe para abrir o porta malas. Retirou da mala de viagem um envelope e lhe exibiu a fatura pré-paga do hotel, em Reston. Foi então que ele viu o nome da cidade e deu uma estrondosa gargalhada que ecoou até o outro lado do rio, no Mall do Capitólio, fazendo tremer aquele obelisco igual ao da cidade natal do Menino das Lavras, onde esse monumento é conhecido por “pirulito”. Surpreso, com o sotaque desastroso do brasileiro, o motorista retrucou, a uns 80 decibéis... “ooohhhh it´s Reeeeeeeeeston, not Heston!”. Desapontado, com cara de paisagem, restou ao Menino também gargalhar e num instante chegaram ao destino, pois o tempo passou e as gargalhadas nunca cessaram. Para o visitante brasileiro, ainda com a língua portuguesa no subconsciente, Reston é RReston, com dois “erres”. Para eles é com aquele som de um só “R”, isolado, como na palavra maré. Ele pensou no Charlton Heston (RReston), lá em Hollywood, muito longe dali....., coitado, não saberia mesmo.


 Alguém já pensou em complicações assim? Nesses ambientes poliglotas não se pode perder uma única palavra, sob pena de se prejudicar a compreensão e comprometer as respostas aos questionamentos em pauta. Não se pode dizer um sim ao interlocutor quando a resposta deveria ser não! As normas trabalhistas exigem, não à toa, que os tradutores e intérpretes trabalhem apenas 50 minutos, com intervalos de vinte, pois o cérebro se esgotaria em menos de duas horas. Seria fácil absorver esses impactos estressantes, se isolados fossem. Mas, nunca foram assim, pois dia seguinte novas viagens se iniciavam para outros destinos, com diferentes ambientes e pessoas quase sempre desconhecidas, o   que  exigia mais atenção e cortesias protocolares. Além disso, nas reuniões no continente europeu alternavam-se três idiomas, inglês, francês e espanhol. Haja resiliência para suportar a sobrecarga no cérebro, sempre com novos e importantes compromissos de negócios da educação e formação universitária de profissionais. Nunca restava tempo para lazer, descanso da mente, mesmo quando se saía sozinho pelas ruas, havia sempre a preocupação de se respeitar a cultura e os costumes dos anfitriões, nem sempre conhecidos pelos visitantes. 


Cultura, costumes em países estrangeiros? Ah, isto, por si só, já daria um livro recheado de casos folclóricos. Em Lisboa o menino quase deixou de comer um bom bacalhau porque interpretou que o garçom fora grosseiro. Nada disso. À pergunta, “tem bacalhau?”, a resposta foi rápida: “temos”. Mais rápido ainda, virou-se e foi-se embora. Chamado de volta, foi-lhe perguntado por que foi-se embora sem dizer as opções do prato, mas a resposta foi certeira: “O senhor perguntou se temos bacalhau, respondi-lhe que sim.... Afinal, o que desejas?”. Compreendido... não estava no Brasil, onde a simples pergunta “tem bacalhau” carrega implícito o desejo de saboreá-lo, portanto já se constitui em “pedido do prato”. Igualmente na Guatemala, foi perguntado ao garçon: ..que es taco? E a resposta, veio direta, nada simpática: Taco es taco, senhor... Naturalmente esperava uma explicação sobre os componentes daquela comida típica da América Central e México. Surpreso, diante da cara nada amistosa do atendente e sem conhecer os ingredientes do “taco”, o Menino preferiu outra iguaria. Na maioria das vezes,uma frase dos nativos que, à primeira vista, possa parecer grosseira para com o visitante, nem sempre é. Basta consultar a outro nacional daquele país, e constata-se que não passa de uma atitude normal, que faz parte da cultura local. Lanchonetes e restaurantes eram os locais de “maior má vontade”, onde os atendentes nem sempre são corteses ou dispõem de tempo para melhor explicar o cardápio aos visitantes. O jeito era comer o que foi servido, diferente do que se pensou ou desejava. E, faça-se cara de paisagem... thank you, merci, gracias...  Assim, o estresse ia se acumulando, especialmente na França xenofóbica dos anos 1980/90.



Felizmente melhorou a aceitação do estrangeiro em terras francesas depois da entrada na C.E.E., a Comunidade Econômica Européia. Antes, porém, o Menino passou por constrangimento no aeroporto de Orly. Cansado da correria, fez o check in para Montpellier, na costa mediterrânea, onde visitaria o Complexo Agropolis. Apressou-se em assentar-se num único assento disponível, ao lado de vários outros já ocupados. Falou a palavrinha mágica, “Pardon, Monsieur”, para um quarentão cavalheiro ao lado do assento vazio e foi se abancando. Antes que se acomodasse levou um sonoro “ Il y a quelqu´un ici”.... Comment?, retrucou o Menino, mas, a contra resposta foi fulminante: tu ne peux pas, em tom mais elevado e insatisfeito. Constrangido, o Menino levantou-se rapidamente e ficou de pé onde estava antes. Vinte minutos se passaram e o banco continuou vazio, ninguém apareceu. Soou puro egoísmo por parte daquele cidadão. Perguntado, a um colega francês, qual teria sido a razão daquela suposta “hostilidade”, a resposta, também foi curta e seca:  “normal”, disse ele! Decepcionado, o Menino ainda insistiu para que houvesse nova explicação e ouviu: “Ele não quis que você se assentasse lá...”. Melhor não discutir os costumes locais, respeita-se a cultura e pronto!


Voltando ao pesadelo parisiense, o Menino acordou sobressaltado e por bom tempo ainda se estendeu a madrugada. Taquicárdico, suando, ofegante com a respiração entrecortada. Verdadeiro pânico, a 11 mil quilômetros de distância de casa, sozinho e... comment appeler quelqu´un?... O que fazer? Totalmente desorientado ao acordar, sufocado, sem saber em que cidade estava ou até mesmo o layout do quarto de dormir com as localizações de luzes, móveis e banheiro, fatores agravantes do estresse pós-trabalho. Some-se a isto a má alimentação, à base de sanduiches e refrigerantes servidos no quarto de hotel, nos finais de semana, devido à fadiga e falta de vontade para procurar um restaurante e tem-se um quadro perfeito com todas as pré-condições para a explosão do stress em forma de pesadelo e pânico. E não são apenas aqueles fatores próprios do indivíduo, que influenciam o estado de espírito. A ciência já comprovou que o tempo nublado, com reduzida luminosidade, diminui a produção de serotonina, o neurotransmissor responsável pelo humor, o apetite e a qualidade do sono. Por outro lado, aumenta a produção de melatonina, hormônio responsável pelo sono. Daí aquela vontade de ficar debaixo do cobertor mesmo durante o dia. Dorme-se mais, porém, mal e acorda-se cansado, irritado. Evita sair de casa ficando recluso mais tempo, fechado em quatro paredes, aumentando-se o isolamento social, com mudança de humor e..., o pior de tudo, altera-se o apetite com tendência a comer mais doces. O resultado? Explosão! Na balança e no humor, beirando o estado depressivo.



Ah..., mas, Paris? Como ficar assim na Cidade Luz? Como é possível? O Menino da Lavras não estaria exagerando?  Lógico que não, pois isto pode acontecer em qualquer lugar do mundo e há o testemunho de JK, turista forçado em Paris, que assim se expressou em seu exílio: “Não há primavera nesta terra. As árvores estão verdes e as flores coloridas, mas o sol, que é propriedade comum dos homens, se esconde sempre atrás de nuvens carrancudas e hostis. Isso reflete na alma da gente e só convida a pensamentos que trazem o tom das nuvens, cor de spleen” (grifei). Viva Brasília, nossa morada, sol 365 dias, céu azul, de brigadeiro, sem nuvens, verdes campos e jardins floridos mesmo no período de seca, com irrigação e água abundante na chácara, onde também os jardins se despontam. Para quem não acredita que o céu de Brasília traz felicidade, veja o que disse o poeta e diplomata Francisco Alvim, que viveu em meio mundo e ao atravessar a pé o Eixão deixou-se atrair pela luminosidade de Brasília, se deslumbrou e assim se expressou, em poema:
“Um céu que não existe/ou talvez exista na França de Poussin/refratado nos interiores de Chardin/talvez em Turner/talvez em Guignard/certamente em Dante/ao chegar à praia do Purgatório/ A felicidade que a luz traz/solta, nua neste céu.”

Mas, amanheceu o dia na Paris nublada e fria daquele domingo de inverno e o Menino, que fora despertado por terrível pesadelo, depois de três ou quatro semanas em missão oficial de trabalho, estava assustado, angustiado. Distante da família e amigos, sem ânimo nem mesmo para sair para almoçar, atacou-lhe o pânico. Uma ansiedade sem igual com sentimentos de medo e solidão. O ambiente era desconhecido e imaginariamente hostil, até mesmo pela paisagem urbana da mais que milenar capital francesa que se apresentava em profundo contraste com a luminosa, radiante, espaçosa e verdejante capital de nosso país, local de residência fixa havia longo tempo. O Menino conheceu assim e pela primeira vez a depressão. Ali, na ironicamente chamada de Cidade Luz, a olhar pela janela aquele cenário sombrio, embaçado, de casario e prédios antigos, que aumentavam ainda mais a angústia quando comparada aos amplos, modernos e ensolarados espaços de Brasília, onde o céu mais parece um mar azul sobre nossas cabeças. Bateu o desespero no Menino cujo pânico aumentava a cada instante e com os olhos embebidos em lágrimas perguntava para si mesmo o que estava fazendo ali, por que teria que passar por aquilo? Como a relembrar as palavras de JK e se pôs a perguntar onde estariam as palmeiras em que cantam os sabiás, as aves que gorjeiam nas copas das exuberantes árvores? Ah... JK e o poeta Gonçalves Dias foram sábios, experientes, felizes ao formularem aquelas palavras de pura nostalgia, de amor incontido à Pátria, aos amigos, à família. A angústia, a dor da saudade dos entes queridos, verdadeiro banzo, provocavam mais lágrimas em pranto incontido. O Menino, assombrado, suplicou então a Deus, implorando para que aquele pesadelo ao vivo passasse logo e que a paz em seu espírito condoído voltasse à normalidade.


 Coração disparado, respiração curta e ofegante, suor, tontura, seria um ataque de coração? A boca seca, uma onda de calor pelo corpo, e num gesto desesperado abriu a janela do quarto, empoeirada por fora. O dia já corria, beiravam às 11 horas da manhã e o frio cortante do inverno parisiense acoitou-lhe o rosto provocando um choque térmico que pareceu cortar-lhe de vez a respiração. Desmaio iminente com a alma ferida, em verdadeiro desespero, pânico, olhos marejados, agonia que se prolongava por mais de seis horas seguidas. Mas, num esforço físico extraordinário e derradeiro, já com os joelhos dobrados, prestes a desabar de vez, lançou mão do telefone, ali na cabeceira da cama, bem à altura de seus olhos a menos de meio metro do grosso e macio carpete que revestia o piso. Não existia ainda a telefonia celular, onde tudo seria mais fácil, bastando apertar uma única tecla de emergência e a ligação cairia automaticamente em casa, não importando em qual país estivesse. Com muita dificuldade, ainda assim, conseguiu ligar para a casa distante. Juntou os lampejos de raciocínio que ainda afloravam e deu conta de discar o zero, outro zero, e então o 5, outra vez o 5, o 6 e o 1, completando os códigos do país e da cidade e depois os oitos dígitos do número de casa, cuja memória sabia de cor, pois tantas e tantas vezes o discara em busca de notícias da família. Foram suficientes apenas dois toques do tom de discagem e atenderam a ligação, de imediato. Que alívio, que benção dos céus, logo ao primeiro toque e como foi bom ouvir a voz da esposa, do outro lado do Atlântico. Parecia que estava retornando ao aconchego do lar e reconfortado o menino pôde ouvir, distante, mas soando nítido as palavras do Salmo 23:
“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará... Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo...”.

             Foi a maior lição de sua vida. O Menino das Lavras compreendeu, por meio desse triste e sofrido episódio, que as unhas do inconsciente, ocultas como as dos felinos, podem aflorar repentinamente, podendo nos levar ao colapso psicológico, ferir-nos gravemente e até provocar a morte. Percebeu que a loucura passou perto, ou em outras palavras, no jargão médico, foi um ataque de ansiedade ou de pânico, que é mais comum do que se imagina. Por isso, apreendeu: É preciso equilibrar o trabalho, as viagens com o aconchego da família. "Já passei por problemas oriundos dessa loucura. O estresse a que somos submetidos nos leva a superar limites. E, às vezes, a não superá-los", disse o compositor e cantor Digão, do conjunto Os Raimundos, cujas palavras, que bem retratam a realidade, foram propositadamente colocadas em epígrafe, abrindo esta crônica.  Acertadamente, a pesquisa britânica também constatou que 75% daqueles que têm a viagem como obrigação de trabalho, consideram-na “um problema” e isto, não raras vezes, leva ao colapso psicológico, à depressão. Ainda bem que o menino das Lavras superou os traumas e agora nem mais está sujeito à escravatura workaholic e também não mais viaja tanto.


                 E ainda dizem que viagens, especialmente ao exterior, são glamorosas... Os amigos sempre diziam isto ao Menino. Não sabiam da metade dos casos.  Glamorosas, só se forem de férias, acompanhado pela família e ainda assim uma única vez ao ano, até porque o melhor da viagem, dizem, é a volta para casa. Aliás, hoje o Menino está em casa, escrevendo, lazer predileto, contando essas histórias que um dia foram vividas e deixaram marcas para sempre.

Um bom feriado para todos!
Brasília, 15 de novembro de 2017
Paulo das Lavras


O Menino esperou 30 anos para voltar à França depois daquela amarga experiência com as garras do inconsciente. Viajar a trabalho com agenda cheia, reuniões infindáveis, jet lag, comunicação obrigatória em outro idioma, são ingredientes que, se não cuidados, podem levar ao estresse ou mesmo à depressão dos viajantes.
Na foto, o Cemitério Americano da Normandia. Ali estão sepultados cerca de 10.000 soldados das tropas aliadas da Segunda Guerra Mundial.



 
Simulando depressão. Muitos amigos não acreditam que é possível haver depressão em viagens. A charge da foto ilustra bem, simulando pessoas em depressão. Para os viajantes contumazes, a depressão pode estar fora das pistas, ou seja, nas próprias pessoas. Não está apenas no desnível da pista, mas na alma, cujo abismo é maior, desconhecido e imensurável. Só mesmo quem viajou por muito tempo, por períodos prolongados, sabe o que é a depressão nas viagens. Perigo!
                                                  Foto: internet

Espantando a saudade de casa, num final de semana em Otawa,
com o que mais alegra os corações: flores


...ou num ferryboat, de Vancouver para a ilha de Vitória,
no oceano Pacífico.

Cartagena de las Indias, terra do escritor Gabriel Garcia Marques

Passeando no bondinho de São Francisco, na California, pouco antes
da primeira experiência de pânico que se revelou, na verdade, uma premonição de algo grave acontecido em casa, naquele exato momento, a mais de 10 mil quilômetros.


Ansioso, numa demorada stop over de conexão aérea, em Miami, aguardando
o voo noturno da PanAm, o único direto para a casa em Brasília


Em outra ocasião, num sábado, nas montanhas da Guatemala, com uma indígena
cuidando da lenha para cozinhar


Primavera em Michigan, com o colega de nosso escritório nos E.U.A,
 Charles Laughlin. Professor de Fitopatologia da MSU e escritor de contos infantis.
Pouco tempo depois foi vitimado por insidioso mal e nos deixou para sempre


Fim de semana numa bela fazenda em Tuscola- Illinois.  Sim, essa é
uma casa de fazenda, no “Corn belt” americano, local das terras mais
férteis do mundo, cerca de 250 km ao sul de Chicago.

Fim de semana em Londres, fugindo do frio de Paris, onde
trabalhávamos  por  mais de quatro ou seis semanas seguidas a cada período


Aproveitando o final de semana na cidade do México. Pausa para conhecer a história 
de seu povo, juntamente com uma adida cultural da Unesco/Paris


Castelo de Sintra – Portugal


...da sacada do Vaticano, contemplando a milenar cidade de Roma



Quase nunca foi possível levar a família nas viagens de serviço. Momento de
rara descontração com a esposa. Visita a uma universidade, com o casal Michaeel e
Mrs. Smartler, da Michigan State University – 1977


Não havia tempo sobrando, só trabalho. Nesta foto, de 1988, em Paris, recebendo no Ministère de l´Agriculture/ Division de l´Enseignement Agricole Superieur, uma delegação brasileira de dirigentes universitários. O primeiro da direita é o diretor da então Escola Superior de Agricultura de Lavras- Esal/Ufla, Prof. Juventino Julio de Souza.


Viagem de lazer, depois de 30 anos. De volta a Paris, com os canhões de Napoleão


Na Ponte do Amor, em frente à Catedral de Notre Dame, bem próximo ao hotel
. onde passou por aqueles momentos terríveis. Revisitou-o. Nenhum ressentimento. Apenas 
relembrou a lição aprendida e agradeceu a Deus pelo livramento de mal maior.


Bunker alemão, na costa da Normandia, de onde metralharam 5.000 soldados das Forças Aliadas,
 no Dia D, da invasão para libertação da França.
Lazer na França? Só muito mais tarde lá voltei e pude visitar tudo que queria,
tranquilo..., sem stress e muito contente com o aprendizado histórico cultural


 
Foram cerca de três mil viagens no país e em  missões internacionais  em quatro continentes. Quase 40 anos de serviços no Ministério da Educação, com mais de 25 ministros.
Trabalho com alegria, tanto no país como no exterior... Mas, os fins de semanas em terras estrangeiras... .


Recebendo, no MEC, os dirigentes do UniLavras



Desembarcando em Lavras (primeiro à direita) com o Ministro da Educação, Hingel
 (semi-encoberto) que cumprimenta a diretora do Uni-Lavras, Marilia Lunkes.
Ao lado, o reitor da Ufla , Silas  Pereira.



A volta para casa começa no dia anterior, com o périplo pelas lojas para os indefectíveis presentinhos. Lembranças para quem ficou em casa e não foi esquecido. Faz parte daquele ditado: O melhor da viagem é a chegada em casa! Até mesmo por ver os familiares revirarem as malas em busca dessas pequenas lembrancinhas, mimos, que mais nos fazem felizes por presenciar a alegria familiar, a certeza de que eles sabem que nunca foram esquecidos.
Mas...., mas...,
o melhor mesmo é viajar de férias, levando a família. Diversão e prazer garantidos. Certamente não haverá momento algum de ansiosidade, de angústia, estresse que provoque esgotamento, deprê que teima em minar nossa alma nas longas e demoradas viagens de trabalho.


Hoje, mais que nunca, “o melhor da viagem é a volta para casa” para curtir os netos, a família. 
Os filhos não pudemos curtir tanto quanto se desejava, pois viajava até duzentos dias por ano.




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Tietando no cerrado – com Augusto Cury


                        Jorge Amado tietou no agreste e antes escreveu Gabriela Cravo e Canela. Naquele setembro de 1976, com o grande sucesso alcançado com a telenovela de mesmo nome, corri à uma livraria no Conic, Setor de Diversões Sul de Brasília, enfrentei enorme fila e ganhei o autógrafo da nova edição do livro, com linda dedicatória do marido de Zélia Gattai. Valera o sacrifício, de pé, por mais de hora de espera, pois aquela sua obra prima o imortalizou na esteira da novela de mesmo nome. E hoje rememorei aquele longínquo dia, embora com outro famoso escritor e ainda sem o desconforto de filas e saboreando um expresso curto, que aqui chamamos de carioquinha, servido com pequeno tablete de chocolate e mini taça de água gasosa (quer delícia maior? Melhor que o chá das 5 horas com a rainha da Inglaterra...rsrs). 


                       Mas, Brasília não é o agreste, árida e nem mesmo está seca. Chove bastante nesse início de novembro. Embora o voo que o trouxe tivesse atrasado uma hora, o autor mais lido da década no Brasil e também psiquiatra mais lido na atualidade em todo o mundo, chegou à livraria Saraiva com grande alegria, largo sorriso e passou a cumprimentar efusivamente os convidados especiais - os maiores de 60 anos..., confortavelmente assentados em poltronas ao lado da mesa de autógrafos. Me surpreendo ao saber que ainda há gente com receio de chegar aos sessenta. Nem me lembro de quando cheguei, de tão bons usufrutos, quase que diários, em filas de bancos, cinemas, shows, teatros, que tenho colhido ao longo desses doze anos na faixa da melhor-idade. Só me lembro de um uma única vez que não valeu de pronto. Na fila do bandejão da UnB, quilométrica. O aluno, após meu pedido para entrar na fila, à sua frente, gritou sem dó, nem piedade: “Professor, fome não tem idade...”. Paguei o maior mico, gargalhada geral. Mas, na verdade ele só queria zoar e acabou deixando-me entrar ali mesmo e os dois gringos, americanos, que me acompanhavam nada entenderam.

            Fui dos primeiros a ser chamado, embora a senha, uma pulseira amarela, mostrasse o número 0450 e provavelmente deveria haver mais de 500 leitores à espera do autógrafo daquele consagrado escritor. Não resisti a aquela simpatia e fui logo lhe dizendo, enquanto autografava o primeiro dos três exemplares que lhe apresentei: “Dr Cury, conheci o Dr Marco Polo (personagem que ele criou para as histórias que relata em todos seus livros) na Praça da República, em São Paulo, quando ele era estudante de medicina da USP, brilhante, audacioso aspirante à psiquiatria e revoltou-se contra a frieza com que seus professores tratavam os cadáveres estendidos sobre o mármore branco, logo na primeira aula de anatomia. Por isso, decidiu dar um “break” na vida e foi viver como mendigo naquela praça que o senhor tão bem descreveu em sua obra: O Futuro da Humanidade”. O Dr Augusto Cury estava sério, autografando um dos livros que eu pretendia oferecer a familiares, escutou minhas palavras e em seguida, encarou-me, fez cara de paisagem, denotando certa surpresa e por fim  caiu na gargalhada, quando completei: “Eu também estava lá, como “mendigo” e lhe conheci. Ou o senhor pensa que só estudantes de medicina da USP  “piram” diante da frieza dos professores com os cadáveres daqueles que um dia foram vidas humanas?” E antes que esboçasse qualquer outra reação, completei: “Também os estudantes de engenharia, da própria USP, como eu, se revoltam com as friezas de seus professores quando se trata de cuidar de vidas humanas e de animais de nossa fauna, sobretudo quando falam de pontes que caíram, prédios inteiros que ruíram e no meu caso, na engenharia sanitária,  o silêncio sobre a poluição do ar, da água e do solo e seus efeitos deletérios quando mal gerenciados ou tratados pela engenharia. Causou-me nojo o lixão de São Paulo, as águas poluídas do Tietê e a acamada de ar poluído que paira sobre a cidade, oriundas dos escapamentos de CO2 e outros gases tóxicos de chaminés e dos combustíveis com chumbo tetra-etila. Não à toa a França proibiu carros movidos a derivados de petróleo a partir do ano de 2030”. É um crime de lesa humanidade permitir isso e nossos engenheiros continuam a projetar esses engenhos assassinos de médio e longo prazos.  O senhor, Dr Cury, que é médico sabe melhor que nós, os engenheiros, os efeitos teratológicos de produtos químicos e agrotóxicos que estão a nos contaminar e nos matam pouco a pouco. Onde estão nossos engenheiros, nossas escolas de engenharia com seus professores que continuam a ensinar e recomendar aos nossos jovens a aplicação desses venenos?  Que ética é essa? Perguntou o senhor, na pessoa do fictício médico Dr Marco Polo e agora também reproduzo suas palavras para os professores    engenheiros, como eu próprio, simples professor de Legislação e Ética Profissional...  Ah..., viver entre os mendigos e filosofar, por um ano inteiro, na Praça da República, certamente faria aos engenheiros o mesmo efeito que produziu no pensar do médico descrito em seu livro e que o mudou para sempre, fazendo-o escrever livros e mais livros humanitários, com mais de trinta milhões de exemplares vendidos no mundo todo...

            Lógico que enquanto só eu falava ele ia autografando os dois exemplares extras com as papeletas com os nomes dos agraciados. Uma das agraciadas conseguiu chegar a tempo, fotografou a cena do nosso debate, quase monólogo, e depois também a fotografei recebendo um carinhoso abraço do autor, assim que a identifiquei como filha. Por fim, entreguei-lhe o meu exemplar, onde ele escreveu: “Paulo Roberto, você é especial”.

            Li, e lisonjeado entendi a mensagem, na folha de rosto do livro.  Imaginei que ele pensou que realmente descobri a verdade sobre seu personagem fictício, Dr Marco Polo, psiquiatra, estudante e médico pela USP. Este seria ele próprio, que também se especializou em Psiquiatria. E mais, como o personagem de seu próprio livro, passou, ele, o Dr Augusto Cury, a humanizar o tratamento dos doentes mentais. Um humanista que veio ao mundo para ajudar, para construir, tal qual foi descrito o Dr Marco Polo. É notório que escritores nunca criam ficções sem se basear na realidade. Jorge Amado foi assim, até nas receitas de comida e quitutes baianos de suas obras. Gabriel Garcia Marques em sua magistral obra, “O Amor nos Tempos do Cólera", nada mais fez do que contar a história de seus pais.

O autor devolveu-me o livro  com um largo sorriso, levantou-se e me abraçou. Não tive coragem de perguntar-lhe, ali ao pé do ouvido, se a minha suspeita era verdadeira. Não seria delicado se assim o fizesse. Ao contrário, o cumprimentei como grande humanista que é, e ainda desmenti a mim mesmo, dizendo-lhe que não cheguei a ser como o médico psiquiatra, Dr Marco Polo, que foi conviver com os mendigos numa praça de São Paulo. Conheci sim, e muito, aquela praça pois me hospedava na região quando de minhas viagens de trabalho a aquela cidade, que gosto e a frequentei por centenas de vezes ao longo de meus 50 anos de profissão. Ler suas obras, especialmente aquela do estudante de medicina foi e tem sido muito prazeroso e emocionante, confessei-lhe. Podem dizer que é tietagem, mas todos sabemos que o maior prazer do escritor é receber um elogio sincero, ou um simples comentário sobre uma passagem ou episódio de suas obras. O sentimento de gratidão é um dos maiores presentes que podemos oferecer e, francamente, o Dr Cury é merecedor.
           
             Prometi ao Dr Augusto Cury, aliás, mais a mim mesmo, que no próximo lançamento, de outra obra, estarei presente e lhe falarei desse livro de hoje: “O Homem Mais Feliz da História”. Quero entender como seu personagem desvendou o código da felicidade. Na contracapa li, rapidamente, que ser feliz...
- não é estar alegre sempre, mas se reinventar na dor;
- não é ficar imune aos valores das frustações, mas gerenciar seus pensamentos;
- não é deixar de atravessa crises, mas escrever os capítulos mais importantes da vida   
   nos momentos mais difíceis.

...e disse mais..., ricos quiseram compra-la com seu dinheiro; celebridades tentaram seduzi-la com sua fama; generais quiseram domina-la com suas armas; jovens quiseram captura- la com os prazeres rápidos. Mas, as respostas foram contundentes para cada caso: não estou à venda; me encontro nas coisas simples e anônimas; sou indomável; e aos jovens a resposta foi genial: “sonhos sem disciplinas produzem pessoas frustradas, e disciplina sem sonhos produz pessoas fracassadas”.

                Esse Dr Augusto Cury é mesmo um gênio, um filósofo pesquisador da psiquiatria e da filosofia e se esconde, humildemente, por trás do personagem imaginário, Dr Marco Polo e ainda conclui:

“Se descobrir o código da felicidade, você nunca mais será o mesmo!”

Vou já, em seguida, ler esse seu mais recente lançamento. Conteúdo atraente demais para o Menino das Lavras, que vive a contar casos da infância e juventude cheias de sonhos e percalços, felizmente vencidos e hoje revividos e recontados com duplo prazer. Até porque prometi que irei ao próximo lançamento e comentarei o conteúdo desse novo ensinamento do Dr Marco Polo, que agora lerei. E quem sabe, num futuro encontro eu venha ter a coragem (ou deselegância?) de lhe perguntar se ele é mesmo o Dr Marco Polo. que foi um mendigo, por quase um ano, na Praça da República em São Paulo?

Brasília, 09 de novembro de 2017


Paulo das Lavras 


 
Revelei, com toda “seriedade” (disfarçada), ao Dr Augusto Cury, o mais famoso escritor da atualidade, que eu o conheci quando éramos mendigos na Praça da República em São Paulo. Isso mesmo, MENDIGOS, ele como estudante de medicina  e eu de engenharia, ambos havíamos abandonado os cursos na USP. Surpreso ele ficou e...

Surpreso, encarou-me e depois caiu na gargalhada para, em seguida, concluir a dedicatória
 na folha de rosto do livro. Pensou que eu descobrira que ele seria o próprio Dr Marco Polo,
personagem, médico, fictício de seus livros humanistas



E então, quem se surpreendeu e emocionou, com a dedicatória, fui eu. Embora
com a pulseira amarela, de nº 0450, fui dos primeiros a ser atendido e privilegiado com um diálogo, ainda que quase monólogo. Valeu ... 


Minha filha ficou mais emocionada, ainda. Disse-lhe, textualmente:
 “Um sonho realizado!!!! Foi um prazer e uma alegria conhecer você...., Augusto Cury!!!!
Obrigada pelos conhecimentos que adquiri lendo muitos dos seus livros!”
Ele se levantou, agradeceu e deu-lhe um forte e carinhoso abraço.
Dr Augusto Cury é, antes de tudo, um humanista que só faz bem a todos nós.



Inúmeros são os livros de autoria do Dr Augusto Cury. Já li uma dezena.
Todos de excelente qualidade. Valem a pena!