segunda-feira, 19 de junho de 2017

Amigos que se vão

Amigos nunca nos deixam, ainda que partam para sempre. Permanecem eternamente em nossos corações pelos laços de união e companheirismo que criamos e cultivamos ao longo da vida. Assim foi com Luiz Onofre Salgado, que ontem partiu para sempre. E para nós, que moramos distante, a notícia tem um impacto muito grande, sobretudo quando ainda passados poucos dias havíamos recebido ligação daquele amigo, cumprimentando-nos, desejando saúde e respondendo que sua saúde estava bem. 

Em 1964 entrei na faculdade para cursar agronomia. Anos de chumbo, não só na politica, como também nos trotes aos calouros, alguns até violentos. Veteranos tinham exacerbada gana sobre os calouros. Banhos no lago do jardim na praça central, com roupa e tudo, a qualquer hora, trotes sem fim partindo de todos eles, os antigos alunos, chamados de veteranos. Mas, havia um em especial que se distinguia dentre todos pela finesse, simpatia e empatia ao tratar com pessoas. Natural de Nepomuceno foi logo me dizendo conhecer meu tio e sua família que lá moravam. Amizade logo no início e parecia que já nos conhecíamos havia tempo, tal o grau de empatia. Nunca me aplicou um trote, quando calouro de cabeça raspada e portando uma ferradura de cavalo dependurada no pescoço (para simbolizar a “burrice” do calouro, escravo dos veteranos...). Ao contrário, ele deplorava a grosseria, a violência dos trotes e não concordava com os demais que os praticavam com grande humilhação para os calouros. Nasceu daí a amizade que aumentou com os contatos mais frequentes, inclusive na sede social do Centro Acadêmico de Agronomia-CAA, para o qual fui escolhido como diretor social, com a responsabilidade de fazê-lo funcionar de terça a sábado, com horas dançantes, ao som de Ray Conniff, Billy Vaughn, Paul Muriat, Percy Faith, Bert Kaempfert, Elcio Alvares, Românticos de Cuba, Mantovani e tantos outros LPs de sucesso. Ali ele sempre comparecia com seus colegas de turma e aos sábados com sua namorada Ana Maria. Formavam um belo par, admirado por todos à época. Mais tarde casou-se com outra, divorciou-se depois de algum tempo e há uns dez anos casou-se novamente, com a esposa que o acompanhou e dele cuidou com dedicação até os instantes finais.

Luiz Onofre formou-se em agronomia no ano de 1964. Trabalhou inicialmente na Bayer, em São Paulo e em seguida foi convidado para integrar o quadro docente da Esal/Ufla, ali se aposentando para então iniciar atividades empresariais na área de testes de produtos fitossanitários. Frequentava Brasília constantemente, quer na qualidade de chefe de departamento da universidade, ou chefe de gabinete da diretoria da antiga Esal, aqui discutindo projetos junto ao MEC, na Secretaria de Educação superior, onde trabalhei por 35 anos, ou em outros ministérios como Agricultura, Indústria e Comercio e outros órgãos da administração federal. Recepcioná-lo na capital era um prazer, sobretudo quando convidado para almoço em família. Certa vez compareceu a uma recepção que oferecemos, em nossa casa, ao novo diretor, Prof. Juventino Júlio de Souza, então empossado pelo Ministro da Educação. Em qualquer ocasião sempre irradiava simpatia, alegria contagiante, como mostram algumas fotos de nosso arquivo. Apenas para ilustrar, há cerca de uns quarenta dias, ligou-me, depois de obter meu numero (disse-me que havia perdido a agenda no celular e então o recuperara com meu irmão, com quem se encontrou casualmente na rua), para cumprimentar-me pelo aniversário transcorrido havia uns vinte dias. Fiquei honrado com a especial deferência e disse-lhe duas coisas: aniversário comemora-se a qualquer hora e receber os cumprimentos e votos de saúde dos amigos também pode e deve ser o ano todo, de modo que nem precisava se escusar pela demora e que brevemente retornaria igual gentileza em seu aniversário.

Professor Luiz Onofre nos deixa muito entristecidos com a sua partida para sempre. Está sendo velado, nesta manhã, no Salão Nobre da Universidade, a mesma que ajudamos, ele, eu e tantos outros a construir física e institucionalmente. Muitas dessas realizações em conjunto ainda contarei, passadas aqui e na França, onde o levei certa vez para prospecção de acordos de cooperação técnica na área de fitossanidade. Para nós que não pudemos estar presente, juntarmo-nos aos colegas nesta hora de dor para o adeus final, é sim mais doloroso. Dia de luto na alma. Mas, como disse antes, permanecerá eternamente em nossos corações. Apenas mudou de endereço, cancelou o número de telefone celular que não atende mais, mesmo quando chamado nesses dois últimos dias de agonia no Hospital da Beneficência Portuguesa, onde fora se tratar. Por isso, não cumprirei a promessa que lhe fiz a uns dias atrás, de ligar-lhe na próxima semana, dia 26 de junho, no seu aniversário. Ligarei, sim, mas de outra forma, em oração aos céus agradecendo a Deus pelo amigo que lá está e que deixou-nos muita saudade. Estará, sim, para sempre, ao lado do Altíssimo que nos ampara. Em nossos corações também permanecerá par sempre, com aquele sorriso de alegria que mostra nas fotos! Descanse em paz, Amigo!

Brasília, 19 de junho de 2017


Paulo das Lavras




Dezembro de 1987, Luiz Onofre, alegre, sorridente, na recepção em minha casa, em homenagem ao novo Diretor da ESAL, empossado horas antes pelo Ministro da Educação.
Foto: José Alves de Andrade (Zé Planche), Cida esposa do Diretor Juventino e Luiz Onofre a meu lado.
Atrás, o Diretor Luiz Augusto de Paula Lima que acabara de repassar o cargo ao novo diretor.



Na mesma festa, Eros Gomide, Agostinho, - meus irmão, Anizio Pereira da Silva,
Silas Costa Pereira que viria a ser o próximo Diretor da Esal depois do mandato de Juventino,
e o inesquecível Luiz Onofre.



Festa de 50 anos de formatura na Esal, 2014. Luiz Onofre e seus colegas
Luiz Gomes Correia, Daniel Lima Barrios e Roberto Costa Carneiro, o famoso goleiro Peré
também falecido recentemente, em agosto de 2016.
Amigos que se foram. Saudades e muitas histórias que fazem parte de nossas vidas.
Foto: Maria Lúcia Cunha Carneiro

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O ódio nas redes sociais e no dia a dia

Muito já se escreveu, discutiu e publicou sobre esse terrível sentimento, o ódio. Não queremos acrescentar e nem prolongar essas discussões, mas, somente destacar um dos conceitos mais acertados sobre o comportamento daqueles que cultuam essa arte associada ao quinto pecado capital, a ira e quase sempre ligada a outro, a inveja. É sabido que o pecado leva à morte e o ódio é o que mais contribui para isso. Ele se vira contra o próprio dono, devora sua alma, sua alegria, destila veneno por todos os poros do corpo, consumindo-o moral e fisicamente. A pessoa que carrega ódio em seu coração se torna feia, cara amarrada, carrancuda, olhar fulminante que deixa transparecer o ódio que emana de sua alma. O ódio mata a esperança, tira a paz, rouba amizade, o respeito, e o apreço. Alguém tem que ser culpado, menos eu, como dito por um filósofo: “o meu inferno é o outro...” Errado! Temos que ter empatia, colocarmo-nos no lugar do outro, abandonar esse comportamento e adotar o oposto, o sorriso que escancara a alma das pessoas de paz, tranquilas, resolvidas, de bem com a vida.

Mas, esse preambulo foi apenas para reforçar o conceito que um jornalista expressou, em defesa de outra jornalista, atacada, a bordo de um avião, pelo ódio de uma horda de fanáticos partidaristas, incentivados que foram por dirigente de partido, aquele mesmo que sempre dizia “nós contra eles”, elegendo a jornalista, vítima, como uma das grandes inimigas do partido. O jornalista disse: “Quem odeia faz tudo para ser ouvido, lido, visto. E não quer ouvir, ler nem ver o que vai contra o seu pensamento. Vê o diferente como uma ameaça, um inimigo, pura e simplesmente”.  Outra presidente de partido, prosseguiu ele, “ainda tentou justificar a agressão à jornalista, ocorrida dentro do avião e até um ministro do TSE, em outro caso, pediu a degola de repórter”.

Fim do mundo, ou apenas estamos diante de uma onda de ódio orquestrada por sequiosos pelo poder? Tomara que seja passageira essa onda, pois a julgar pelo comportamento da tripulação do avião, que nada fez par advertir os agressores, demonstra-se que há certa paralisia ou quiçá conivência, apoio velado. E nesse sentido podemos dizer que nas redes sociais esse ódio encontra campo fértil. Basta curtir ou compartilhar e já se está apoiando, difundindo a raiva alheia que também passa a ser sua.

            Melhor falar de amor, companheirismo, solidariedade, ou ainda rememorar as delicias da infância e da juventude. Falar ou difundir o ódio mostra mais de si próprio que do outro, do qual estamos a reproduzir as opiniões e atos. Esqueçamos isso e hoje é um dia especial para se pensar nisto, pois embora não possamos controlar o que os outros fazem, seja conosco ou mesmo com terceiros, podemos equilibrar a nossa reação e ainda colocar limites na situação em que estamos envolvidos.



Brasília, 15 de junho de 2017    (dia da Eucaristia, também chamada de Corpus Christi)

Paulo das Lavras


Sorriso aberto, alma escancarada, alegria no coração, vida longa...
 A vida é bem melhor assim, como essa mãe e filha que casualmente encontrei às
vésperas do dia de Corpus Christi. Integram uma Associação de Jovens, encarregada
 de confeccionar uma parte do tapete para a procissão. Espalhemos o Amor e não o ódio!


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Reminiscências da infância e da juventude

     Proust disse que "os verdadeiros paraísos são os que perdemos" e o poeta Mário Quintana ensinou que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu" então, deve ter sido por isso que construí inteiramente uma chácara na zona rural de Brasília, onde há montanhas ao redor, coisa rara no planalto central, mas que faz parte da alma e do sentimento dos mineiros das alterosas. Inconscientemente o adulto a construiu ao longo tempo. Ali a enfeitou com bonitos jardins, lagos e água corrente, carro de boi e arado de aiveca trazidos da fazenda onde nasceu, nas Minas Gerais. Há, ainda, um Jeep Willys antigo, reformado e em plena forma para fazer trilhas nas montanhas, matas e no lago feito especialmente para essa finalidade. Inúmeras fruteiras, galinhas, cavalo marchador, cães de diferentes raças e até um moinho de brinquedo que é movido pela bica d´água. Há, também, pequenas plantações de hortaliças, milho, cana, mandioca, bananas e variado pomar. O café mereceu destaque especial com vários pés em franca produção, contando ainda com todo o maquinário, de pequeno porte e original da Pinhalense, para beneficiamento dos grãos, torrefação e moagem além do antigo torrador manual usado em fogão a lenha. Há também a máquina manual para moagem da cana e produção do caldo tão apreciado pelas crianças após uma pescaria nos lagos bem ao lado.

      Certamente tudo isso que ali fora construído confirma os dizeres dos autores citados. Ali, naquele lugar dei asas aos meus sonhos e pude reconstruir e recuperar, literalmente, o verdadeiro paraíso referido pelo escritor francês Marcel Proust e assim “continuar morando” na velha casa em que nasci, conforme a prosa e versos do grande poeta Mário Quintana. A casa onde nasci, aliás, foi também reproduzida em um belo quadro pintado por encomenda e que agora enfeita a parede da sala. Nela eu lanço diariamente o meu olhar contemplativo sobre a janela cortinada do quarto onde nasci e um filme de reminiscências roda sem parar na minha mente em deleite. Começa invariavelmente pelas brincadeiras de roda em frente àquela janela, lideradas por nossa mãe e tias (sempre havia uma por perto e acho que era para ajudar a olhar a meninada, pois éramos sete irmãos e, mais os agregados, chegando a mais de dez crianças). As brincadeiras de roda e outras além das cantigas folclóricas ocorriam diariamente e eram sempre após o jantar que era servido rigorosamente entre quatro e 4:30 horas da tarde. Às sete da noite todos já estavam prontos para dormir depois de um bom copo de leite quente.

 Não havia energia elétrica naquela velha fazenda e a iluminação era muito precária, à luz de lamparina de querosene. Depois melhorou com o lampião Aladim de camisa incandescente. Na verdade até existiu uma pequena hidrelétrica com gerador monofásico que deixou de funcionar antes que eu nascesse. Assim, devido ao recolhimento logo que escurecia, levantava-se muito cedo. Os pais já estavam de pé às 5 horas, com os primeiros acordes dos galos, quando então faziam o café, com o pó moído na hora. O barulho do moedor manual de café era o nosso despertador, pois, afixado no portal da cozinha ressonava em toda a casa no silêncio da madrugada, juntando-se à gostosa entonação dos cantos dos galos e da passarinhada. Entre seis e seis e meia da manhã todos já estavam de pé para o café com leite, queijo (preferíamos o queijo cabacinha que vinha da fábrica de queijos, onde era entregue a produção de leite), requeijão e manteiga caseiros, broas de fubá, bolo de mandioca, biscoitos de polvilho e bolachas (biscoitos de trigo) feitos no forno à lenha acoplado ao fogão. Todos esses alimentos eram simplesmente chamados de “quitandas”. Meu pai não dispensava uma farofa especial que ele próprio preparava com farinha de milho da marca Elefante (só servia essa tradicional marca, cuja fábrica se localizava na Rua Progresso, em Lavras) e muitos ovos mexidos em grandes pedaços. Mais parecia uma omelete, mas, ele a chamava de farofa. Sempre a fazia, especialmente quando já morando na cidade íamos, os meninos, passar as férias com ele na fazenda. Era o nosso paraíso. Ali havia de tudo com fartura, sem contar as frutas da estação, legumes, milho verde com pamonhas e curau.

E o filme da velha casa continua a rolar na imaginação com cenas das caronas no carro de bois carregado de café cereja, seguindo-se as imagens das estripulias do garoto galopando nos cavalos preferidos, os mangas-largas marchadores Rosilho, Queimadinho e a égua Mineira, de grande porte e inteiramente de cor preta. Desfilam ainda as imagens marcantes pela perigosa aventura nadando no ribeirão Água Limpa que transbordava e nos levava pela correnteza abaixo, boiando com duas cabaças amarradas sob os braços. Só mesmo o anjo da guarda dos meninos para salvá-los de acidentes como a queda na cachoeira de pedras, situada depois da segunda curva do turbulento riacho que transboordava nos meses de chuvarada e férias escolares. Graças a Deus que encalhávamos propositadamente na última curva de onde éramos resgatados pelos camaradas (empregados da fazenda) que lá estavam com uma vara de bambu para nos resgatar no paredão do barranco. E as aventuras continuam com as caçadas aos passarinhos, jogando bola no terreiro, subindo nas árvores imitando Tarzan ou simplesmente buscando as mais doces mangas, laranjas, figos, araticuns, goiabas e outras frutas. Também era comum, ao cavalgar pelas trilhas, matinhas e riachos, dar tiros imaginários com Colt 45 ou Winchester 44 nos bandidos em fuga como nos velhos filmes de far-west ou alvos diversos, geralmente grandes pedras no alto das serras ou nos paturis que povoavam as lagoas à beira do Rio Grande, juritis e aves de rapina como as corujas e gaviões muito espertos a nos amedrontar com seus vôos rasantes e piados característicos. Esse filme daqueles doces tempos não tem fim. É puro deleite, agora, ali no novo paraíso que construí e onde também cantam os sabiás, bem-te-vis, juritis, canários da terra, rolinhas, tizius, anus, quero-queros, paturis e até um belo casal de tucanos do bico amarelo e preto. Toda essa passarinhada em sinfonia se alimenta e reproduz ali mesmo no extenso e variado pomar que foi plantado justamente para atraí-los.

Hoje, na chácara, costumo trabalhar duro nos finais de semana na capina e jardinagem, no trator aparando grama, no plantio, nas colheitas de café e outras tantas atividades próprias de uma propriedade rural, porém nada com fins comerciais, apenas por puro lazer.  Não há momento em que não me recorde da figura de meu pai na constante lavra da terra, o mais honesto dos trabalhos onde o suor do trabalhador lhe remunera diretamente com a colheita farta do alimento, sustento da própria vida e de sua família. Não há prazer maior para um agricultor do que ver toda a família reunida à mesa, juntamente com os agregados e convidados saboreando os frutos de seu trabalho, servidos em abundância. Tranqüilo e grato a Deus ele pensa nos seus celeiros e paióis cheios, com a colheita farta e garantida para a alimentação da família e dos rebanhos até a próxima estação de chuvas. Assim era a vida no campo. Simples, mas enchia de orgulho toda a família que participava e desfrutava dos prazeres proporcionados pela natureza.

            Quem diria, tive que aprender as lições de um escritor francês e de um dos poetas brasileiros mais admirados, para encontrar, somente agora, a explicação para o fascínio que tenho pelo paraíso perdido representado pelas casas onde nasci e me criei até me formar na faculdade. A segunda casa, localizada na cidade, também pintada e decorando a mesma sala mostra, ao fundo, a imponência da Serra da Bocaina com indescritível beleza no horizonte. Proust e Quintana me fizeram entender esses sonhos inconscientes. Além disso, o novo paraíso, que reproduz os locais vividos no passado, é o refúgio onde posso contemplar a natureza em toda a sua dimensão – homem, terra, água, ar, fauna e flora. É ali que me reencontro como “pessoa” em minhas reflexões sobre os valores da vida, da família e dos amigos. Esse “retiro” na calmaria e beleza da natureza também se faz necessário devido à agitação da vida em grandes cidades, sobretudo na capital federal onde as relações, inclusive de trabalho, perpassam pela vertente política. É uma verdadeira selva de pedra e com todas as demais mazelas próprias como trânsito caótico e crescente violência que nos deixam estressados e até neuróticos. Por outro lado, o trabalho demasiadamente intelectual e desenvolvido com elevado padrão de ética exige profunda e completa imersão nas questões, o que nos leva à exaustão. É comum gastar-se 50 ou 100 horas de efetivo trabalho para a produção de uma tese inovadora e que demanda múltiplas pesquisas bibliográficas. Não bastasse a exaustão mental, as intensas demandas profissionais como conferencista em estratégias para a formação em Engenharia e Agronomia, nos empurravam,   quase sempre, para o isolamento do convívio social. Assim, diante do esgotamento mental só mesmo a construção  daquele novo “paraíso” quintanense/proustiano para recarregar nossas baterias.

            Também já aprendi que à medida que os anos passam a gente vai se tornando mais sensível, amoroso, saudoso e respeitoso em relação ao passado, à infância, juventude e aos valores inestimáveis dos amigos de infância, de nossos pais, irmãos e especialmente dos filhos e netos. Neles, os jovens, vemos a continuidade de nossas vidas. Portanto, acho mesmo que é natural que tenhamos em meio a essa vida agitada de hoje, esses surtos de saudosismos. Digo “surtos” porque não sou saudosista de desejar que o tempo retorne e que se volte à época dos arados de aiveca, dos carros de bois, dos cavalos como meio de transporte e a iluminação à lamparina, a pena e o tinteiro com o mata-borrão para escrever cartas a serem levadas por mensageiros ou, ainda, passear no duro e desconfortável Jeep Willys. Não há nada mesmo, com certeza, que eu desejasse hoje como era antigamente. A tecnologia e a modernidade aí estão para nos proporcionar maior conforto e bem estar. Melhor viajar num jato de seis ou 400 lugares, jantando em Nova York ou Paris e tomar o café da manhã no Rio de Janeiro. Ou então rodar num SUV importado, com ar condicionado, mídia e GPS, usar o celular ou a internet para se comunicar com o mundo inteiro por áudio, mensagem ou vídeo, ao vivo, instantaneamente. Muito melhor e mais confortável que esperar o mensageiro a pé, a cavalo ou de trem e barco, ou andar léguas para se encontrar o interlocutor. Mas, devemos olhar o passado com respeito e admiração, pois se constitui em verdadeiro aprendizado que valoriza o progresso de hoje e nos impulsiona para o amanhã. Portanto, devemos ter os olhos sempre voltados para o futuro, mantendo-se no coração os sentimentos ligados ao passado.

 A propósito de paraísos e da casa onde nascemos, há coisas mais doces e puras do que a infância e a juventude? Melhor se vividas num imenso ambiente cheio das mais variadas e prazerosas atividades, cercados de verdadeiros amigos que cresceram juntos no amor e toda a harmonia que a natureza nos oferece.

Proust e Quintana traduziram magistralmente esse sentimento e abaixo reproduzo as fotos e pinturas desses paraísos – o perdido e o reconstruído.

Brasília, 2006/2012


Paulo das Lavras 




 
A velha casa da fazenda onde nasci, em Lavras

A casa da cidade em extensa área de 20 Ha,
           com vista para a Serra da Bocaina
                                                                          


 
O paraíso reconstruído em Brasília: a casa, o carro de boi...



...                        O arado de aiveca que pertenceu a meu pai, trazido para o  novo  paraíso                         
                                                                                                                                  




o Manga Larga Marchador, como nos tempos da fazenda.



A pescaria dos netinhos...



 
                       O velho Jeep Willys para trilhas no barro e montanhas... , crianças 
a bordo e travessia de lagoa..., adrenalina a mil   
                              


                          A secagem do café recém-colhido! E, acreditem, e no cerrado de Brasília                                                                


Subir na jabuticabeira e se fartar... sabor de infância que nunca
 esquecemos, mesmo depois de mais de 60 anos e a 1.000 km de distância



O cheiro adocicado do café, vermelho  e do amarelo bourbon, faz brotar a
reminiscência da infância vivida na fazenda, pegando carona no carro de boi
 carregado de café cereja recém-colhido. Proust e e Quintana têm razão... continuamos
a morar na velha casa onde nascemos. Verdadeiro paraíso perdido, mas que mora
eternamente na alma da criança que nunca deixamos de ser.
E tem nome... : Felicidade!







sábado, 20 de maio de 2017

93 milhões de milhas de distância e ainda em casa

Noventa e três milhões de milhas é a distancia do sol. A lua está a 240 mil milhas da terra e quando os vemos e admiramos nos lembramos daquilo que os pais nos diziam:
“Oh, minha bela mãe..., ela me disse, filho, você irá longe na vida. Se fizer tudo direito, amará o lugar onde estiver, mas tenha a certeza de que onde quer que vá, você sempre poderá voltar para casa. Coisas de mãe, com certeza, pois sempre querem os filhos ao seu redor, mas, no entanto compreendem que eles precisam voar, deixar o ninho. Já o pai dizia:
“filho, às vezes, pode parecer escuro, mas a ausência da luz é uma parte necessária na vida. Apenas tenha certeza de que você nunca está sozinho e você sempre poderá voltar para casa. Casa, casa..., você sempre pode voltar”.

            E lá fomos todos nós, eu você, os amigos “ganhar a vida”. Encontramos “a estrada que é uma subida escorregadia, mas sempre pudemos, também, encontrar uma mão na qual podíamos nos segurar. E então, ali, olhando profundamente pelo telescópio o distante sol ou a lua, você pode perceber que seu lar está dentro de você”.

            Belas estrofes grifadas em itálico. São partes da letra da canção interpretada por Jason Mraz, 93 Million Miles. Têm profundo e verdadeiro significado. Quando menino deixei a casa de meus pais e fui, voluntariamente, para um internato, um Seminário da igreja católica. Em poucos dias percebi, ao contrário do que disse o poeta compositor, que o lar não estava dentro de mim, enquanto ali permanecesse. Mas, a sabedoria materna não nos deixa errar. Eu ainda não estava fazendo a coisa certa, pois era criança e prevaleceu a segunda parte: “... onde quer que vá, você sempre poderá voltar para casa”. E definitivamente voltei para casa ao término do ano letivo e fui mais feliz.

            Mas, anos mais tarde, em missões de longa duração, no exterior a milhares de milhas, sozinho nos hotéis, pude sentir literalmente as palavras do cantor: “às vezes, pode parecer escuro, mas a ausência da luz é uma parte necessária na vida. Apenas tenha certeza de que você nunca está sozinho e você sempre poderá voltar para casa. Casa, casa..., você sempre pode voltar”. Alma ferida, solitária, distante fisicamente e eis que abate sobre mim o manto da escuridão. A escuridão da alma, quase um estado de depressão. Foi assim nos EUA e também na França. Neste último, lá pelo quarto domingo de demorada viagem, numa manhã fria, nublada, confinado em um quarto de hotel, sozinho, a mais de 10.000 km de distância da família e amigos, sem ânimo nem mesmo para sair para almoçar, atacou o pânico. Uma ansiedade sem igual com sentimentos de medo e de solidão em ambiente desconhecido e imaginariamente hostil, até mesmo pela paisagem urbana, da mais que milenar capital francesa, em profundo contraste com a luminosa, espaçosa e verdejante capital de nosso país, local de residência fixa havia longo tempo.

Conheci assim pela primeira vez a depressão, a escuridão da alma, tal qual descrito na canção já citada: “às vezes, pode parecer escuro, mas a ausência da luz é uma parte necessária na vida”. Que coisa mais cruel, pois, ironicamente a escuridão me abateu ali, na conhecida e aclamada Cidade Luz, a olhar pela janela aquele cenário sombrio, embaçado, de casario e prédios antigos, que aumentavam ainda mais a angústia quando comparada aos amplos, modernos e ensolarados espaços de Brasília, onde o céu mais parece um mar azul sobre nossas cabeças. Parecia um exílio, forçado pelas circunstâncias do trabalho. Lembrei-me do ex-presidente, JK, que descrevera essa situação de extremo desespero quando de seu exílio político na França (1964/67). Disse ele:
“Não há primavera nesta terra. As árvores estão verdes e as flores coloridas, mas o sol, que é propriedade comum dos homens, se esconde sempre atrás de nuvens carrancudas e hostis. Isso reflete na alma da gente e só convida a pensamentos que trazem o tom das nuvens, cor de spleen” (termo de Baudelaire, que exprime profundo sentimento de desânimo, isolamento, angústia e tédio existencial).

Bateu o desespero no menino das Lavras ao relembrar as palavras de JK e se pôs a perguntar onde estariam as palmeiras em que cantam os sabiás, as aves que gorjeiam nas copas das exuberantes árvores? Ah... JK e o poeta Gonçalves Dias são sábios, vividos, experientes no exílio e com amor incontido à Pátria, aos amigos, à família. A angústia, a dor da saudade dos entes queridos, verdadeiro banzo, provocaram lágrimas num pranto incontido no menino que suplicou, implorando a Deus para que aquele pesadelo ao vivo passasse logo e que a paz para o espírito condoído voltasse à normalidade, à razão. Coração disparado, respiração curta, suor, tontura, seria um ataque de coração? A boca seca, uma onda de calor pelo corpo, e num gesto desesperado abriu a velha janela, empoeirada por fora e o frio cortante do inverno parisiense açoitou-lhe o rosto, num choque térmico que pareceu cortar a respiração de vez. Parecia que a vida estava por um fio diante do ataque incontrolado do pânico. Afinal, só restou mesmo o gesto incontido da alma ferida, em verdadeiro desespero e num esforço físico e mental extraordinário lançar mão do telefone, ali na cabeceira da cama e ligar para a casa distante. Sim, a casa a que nossos pais se referiam, o lar onde estão os entes queridos, esposa e filhos, a família. Com dificuldade, pois não existia ainda a telefonia celular, juntou os lampejos de raciocínio que afloravam e deu conta de discar o zero, outro zero, os códigos do país e da cidade e os oitos dígitos do número de casa. Como foi bom ouvir a voz da esposa, do outro lado do mundo e ainda o alarido das crianças correndo pela casa. Parecia que estava retornando ao aconchego do lar. Porém, por mais que me esforçara para dissimular e evitar maiores preocupações a ela, não foi possível esconder o pranto angustiado, o descontrole de quem se julgava “perdido”, sem ninguém para lhe dizer uma palavra, tirar-lhe daquela solidão abissal, pânico. As palavras não se articulavam, pois o pranto dominava. Lembro-me apenas de ter respondido que estava no quarto do hotel. Porém, ela tudo compreendeu, que estava a salvo do acidente ou dano físico. O dano era outro e bem profundo, na alma e então ela, calmamente, recitou o Salmo 23:
     
O Senhor é o meu pastor; nada me faltará.
Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto de mansas águas;
Refrigera-me a alma. Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome;
     Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum,
     porque Tu estás comigo; o Teu bordão e o Teu cajado me consolam.
     Preparas-me uma mesa na presença dos meus inimigos,
     unges-me a cabeça com óleo; o meu cálice transborda.
    Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e 
    habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.

Uma verdadeira oração, bálsamo para consolar a alma dolorida, perdida, ofuscada pelas trevas que me abateram, ainda que momentâneas. A oração proferida e atentamente ouvida, ainda que à longa distância, deu-me confiança, tal qual ao salmista, o rei Davi, em seus momentos de fraquezas. Confiei que nada me faltaria ali naquele lugar distante, sombrio, desconhecido e solitário. Deus estaria comigo e minha esposa passou-me essa certeza e foi o que me sustentou, retirando-me daquele “vale da sombra da morte”, a morte da alma cujo consciente fugia ao controle. Tudo se acalmou com a voz e a serenidade das palavras com seu poderoso clamor invocando a presença de Deus e fortalecendo a alma. Caí em sono profundo como que anestesiado pelas palavras do salmo e de conforto..., “tenho uma casa, para onde voltarei”. Ainda não eram nem 11 horas da manhã e mesmo assim, caí em profundo sono reparador. Acordei no final da tarde, me alimentei levemente com frutas e derivados do leite e pude, assim, lá permanecer por mais uma semana, em paz, até que terminasse a missão de trabalho naquele país.

Dia seguinte nada mais havia, tudo normal, pois o menino engrenara no seu brinquedinho de segunda a sexta – o trabalho intenso, típico dos workahollic. Mas aprendi a lição, compreendi que as unhas do inconsciente, ocultas como as dos felinos, podem aflorar repentinamente, ferir-nos gravemente e em certos casos até provocar a loucura e a morte. Percebi que a loucura passou perto de mim, ou em outras palavras, no jargão médico, foi um ataque de ansiedade ou de pânico, que é mais comum do que se pensa. E isso tudo sem que nós mesmos percebamos que estamos caminhando para tal.

Sábias, muito sábias as estrofes cantadas por Jason Mraz. Não a toa ele repete: Você sempre poderá voltar para casa,... Casa... Casa. Você sempre pode voltar”. Mas, mais sábias ainda são as palavras do salmista. Aprendi a lição e hoje um amigo paulista acionou o gatilho de meu subconsciente ao postar aquela musica cujo link está indicado ao final. Verdadeiramente a casa é o abrigo seguro nas horas de tempestades. E quando você está só, mesmo perdido nas trevas e não souber o que fazer, a lembrança de casa sempre lhe inspira e traz de volta o amor, a confiança de que tudo vai dar certo.

A distância e a solidão, juntas, não são, efetivamente, boas companheiras. Aprendi isso duramente. Estudos no campo da psicologia mostram que o corpo tem individualidade, o ego, enquanto o espirito, a alma, não tem isso. O corpo sofre com a separação física e o primeiro choque de separação foi quando saímos do conforto da barriga da mãe. E elas, as mães sabem disso, sentem isso e são as primeiras a dizer “... filho, aonde quer que esteja, saiba que aqui é a sua casa, volte...”. A separação produz o medo, a fonte de todas as angústias. O espírito, a nossa alma, ao contrário, não tem senso de individualidade e é comum até dizermos que nos irmanamos em espirito às pessoas. Por isso sempre procuramos a companhia de amigos, que na verdade nem sempre se trata da companhia física, mas, sobretudo pela palavra de conforto estímulo ou até mesmo a crítica construtiva. Por outro lado, considerando a magnitude da alma e se “olharmos profundamente pelo telescópio”, como dito na música citada, Você pode perceber que seu lar está dentro de você. Apenas tenha certeza de que onde quer que você vá, onde quer que você esteja você nunca está sozinho, não! Você sempre voltará para casa”. Bastou um telefonem e minha alma serenou, comungou o amor, encontrei o lar, ainda que muito distante fisicamente. Aliás, o melhor das viagens, sobretudo as longas e demoradas, não é mesmo a volta para casa? Por isso digo que tanto faz estar num concerto de rock no magnífico Red Rock Amphitheater em Denver, onde Jason Mraz encenou seu clip, ou ainda no rigoroso inverno nublado de Paris, ou ali mesmo do outro lado ou mais figuradamente dentro de um gigantesco telescópio, perscrutando a lua ou o sol, posso plagiar o autor e dizer  com plena convicção:

93 milhões de milhas de distância... e ainda em casa! Mais que certo!


Brasília, 20 de maio de 2017


Paulo das Lavras

https://www.vagalume.com.br/jason-mraz/93-million-miles-traducao.html  



 
Jason Mraz, gravando o clip em Red Rocks – 93 Millions Miles
Foto: internet

 
O belíssimo anfiteatro Red Rocks, em pleno canyon, no Colorado
 Foto: internet


 Turistas apreciando o espetáculo no Canyon de Red Rocks
Foto: internet


 
Jason Mraz- 93 Millions Miles – a solidão no deserto... mas pensando na volta para casa
Foto: internet


Estando em casa, nos tempos de faculdade, cercado de amigos... , não havia solidão


Frio de zero grau, tempo nublado..., nem mesmo o belo cenário exibido em outras estações é capaz de evitar aquilo que JK expressou: tem reflexo nas pessoas, deixando-nos com a alma abatida



o há torre Eiffel e tampouco a beleza azul do rio Sena à esquerda da foto, no bosque da região do palácio de Versalhes, que acabe com a solidão, o banzo, a vontade de voltar para casa, o aconchego do lar e dos amigos.


Como diz a letra de Jason Mraz: “você sempre poderá voltar para casa, ainda que seja bem sucedido lá longe”. Nada melhor que voltar de uma viagem a tempo de participar da festinha de aniversário de entes queridos... Bálsamo para a alma!
  


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Brasília – 57 anos, uma volta no tempo

Conheci Brasília em maio de 1966 numa visita cultural da turma do 3º ano de agronomia da ESAL/UFLA. Da janela do velho ônibus Chevrolet, modelo de antiga jardineira fabricada no ano 1952, contemplamos a Esplanada dos Ministérios, a Avenida W3 Sul com seus três ou quatro hotéis (Alvorada, das Américas e das Nações e mais tarde o Bristol). Em toda sua extensão havia árvores recém-plantadas, não medindo mais que dois metros de altura, se tanto. Estacionamos na plataforma superior da rodoviária do Plano Piloto e nos posicionamos para as fotos. Ao longe fumegava o Ministério da Agricultura que, naquele exato momento, sofria um grande incêndio. Soube-se depois que o incêndio teria sido criminoso. Havia muita poeira na cidade, até mesmo na Esplanada que ainda não era totalmente urbanizada e ajardinada. Os viadutos do final da asa sul ainda não estavam concluídos e havia muito movimento de terra nas laterais. Hospedamos-nos no anexo do Brasília Palace Hotel, o único então existente na orla do lago e bem próximo ao Palácio da Alvorada, residência dos presidentes.  Visitamos inteiramente aquele belíssimo palácio, tanto os arredores como seu requintado interior, especialmente o majestoso Salão Nobre no primeiro piso e posamos para fotos na fachada posterior, a chamada fachada leste, com seus deslumbrantes jardins voltados para a orla do lago Paranoá.


 A primeira visita à cidade foi rápida, apenas um dia com pernoite e deixou em toda a turma a sensação de uma cidade fria, sem gente nas ruas e estritamente burocrática. Para os garotos de 20 anos aquele foi apenas um lugar a mais na lista de cidades percorridas, rumando-se em seguida para Goiânia, onde tínhamos visitas técnicas programadas pela Secretaria de Agricultura. Brasília não atraiu e nem inspirou nenhum dos rapazes nesse primeiro contato. Assim também pensava o menino das Lavras que concluiria o curso de agronomia dali a um ano e meio. Sequer imaginava que menos de dez anos depois iria se radicar em Brasília, onde passaria a maior parte de sua vida.


          O segundo contato, em maio de 1973, foi melhor, a bordo de um jato Caravelle, da companhia aérea Cruzeiro do Sul, em escala a caminho de Goiânia, onde o menino-professor da ESAL/UFLA foi ministrar um curso de instalações rurais para técnicos da ACAR-GO (órgão de extensão rural do governo do estado, hoje com o nome de Emater). Contemplei a cidade do alto e achei interessante seu desenho, em forma de avião, com suas longas asas contornadas por bonito lago de água bem azul reluzindo naquela manhã ensolarada e seca de outono. Uma aproximação para pouso pela cabeceira leste proporcionou-nos ampla vista da cidade e seu extenso lago em forma de “u” em suave curva de nível. Pouco tempo depois, em outubro de 1973, o menino volta, em sua terceira visita, para um congresso de Agronomia. Desta vez o taxi rolou pelo Eixão Sul, passou pelo Setor Comercial e desembarcou o passageiro na portaria pergolada do Hotel Nacional, o ícone de Brasília, que hospedava presidentes e dignitários do mundo inteiro. O jovem profissional viera representar o CREA-MG nas discussões dos temas nacionais da profissão e formação na área da agronomia. Mas, ainda não se aventurara a explorar a city. Entretanto, ficou satisfeito com a visita e seus resultados. Logo em seguida, nas funções de Pró-reitor de Pós-Graduação da ESAL/UFLA, voltou à cidade inúmeras vezes, no período 1973/75. A primeira viagem do jovem Pró-reitor de Pós-graduação se deu em novembro de 1974. Desembarcou do One Eleven da Transbrasil, hospedava, quase sempre no Hotel Planalto, na beira do eixo Monumental, em frente à W3 Sul onde, do outro lado, se alinhavam os hotéis Alvorada, das Nações e das Américas e mais tarde também o Bristol. Check-in realizado, correu para o Ministério da Educação. Dessa vez a cidade parecia mais interessante, até porque o menino engenheiro passou a mapear mentalmente os trajetos para os locais onde deveria atuar. Descendo o Eixo Monumental, passando pela rodoviária, ganhou a Esplanada dos Ministérios, bonita, verde, com seu imenso gramado e a imponência dos prédios monumentais projetando-se em contraste com o céu de intenso e límpido, azul de doer as vistas. O Congresso Nacional, monumental, com suas torres gêmeas ladeadas por duas alvas bacias, era mesmo de chamar a atenção pela beleza e harmonia arquitetônica. O taxi rolou por quase dois terços da Esplanada, dobrou à esquerda e do lado oposto alcançou o MEC, o antepenúltimo da pista de quem vai da Praça dos Três poderes para a rodoviária. Meu GPS cerebral plotou (registrou), gravando com exatidão a posição daquele Bloco L, local temporário de trabalho.


            Adentrei o grande hall do Ministério da Educação e Cultura, ornado por uma grande escultura em bronze, esculpida pelo artista brasileiro, Brecheret, representando um belo nu artístico, de plástica impecável. Achei linda a escultura de mais de dois metros de altura. Amor à primeira vista, naquele requintado ambiente de Educação e Cultura. Não bastasse isso, o hall com seis amplos elevadores era todo revestido de espelho de cristal fumê, ligeiramente esverdeado. Os elevadores além de espaçosos também tinham as paredes do fundo revestidas, de cima até em baixo, pelo mesmo tipo de espelho. Um luxo que deslumbrou o recém-chegado visitante. Gostei da primeira impressão, muito contrastante com as cidades e paisagismos até então conhecidos. Subimos ao 7º andar onde funcionava o DAU- Departamento de Assuntos Universitários e ali despachamos pela primeira vez o projeto de tornar a velha Esal, depois UFLA, num centro de pós-graduação de excelência. Estava dado o primeiro passo para a implantação da pós-graduação na ESAL/UFLA, que hoje se desponta nos primeiros lugares do ranking do MEC. Ainda nessa primeira viagem profissional seguimos para o Setor de Autarquias Sul, sede da Capes/MEC, recém transferida do Rio para Brasília. Ocupava dois andares de um prédio situado logo abaixo da Polícia Federal. Mas, nossa atuação profissional na área de Educação Superior e a transferência definitiva para Brasília, ainda em agosto de 1975, já é outra história a ser contada.


Falemos de Brasília. O que é mesmo uma cidade e quais seus elementos que atraem e fixam seus habitantes? Um traçado de ruas e praças com seus prédios? Esta seria uma definição muito simplista e reduzida ao espaço urbano. Uma cidade, no entanto, é composta por muito mais que isso. O que faz verdadeiramente uma cidade é a sua gente, seus habitantes, sua cultura, costumes. E quais são seus habitantes? São apenas os nela nascidos? Não, são todos que nela trabalham ou moram. Especialmente na novíssima capital federal que acolhe a todos os brasileiros dos mais diversos rincões. Aliás, aqueles que a escolheram para morar talvez sejam mais ligados a ela do que os nativos, pois fizeram uma escolha consciente, com base em pelo menos um grande fator que motivou a escolha. A interrelação das pessoas com os espaços físicos, o traçado urbanístico da cidade, seus prédios, monumentos e paisagismo marcam a vida das pessoas, ligando-as indelevelmente e reforçando os laços e o amor à cidade. O escritor Cyro dos Anjos, que chegou a Brasília em 1960, como subchefe de gabinete de Juscelino Kubitschek, escreveu uma carta, em 23 de maio de 1960, a Carlos Drummond de Andrade que morava no Rio de Janeiro. Nela enumerou as razões pelas quais estava gostando da cidade, a saber:

1-    Uns crepúsculos fabulosos
2-    Um horizonte imenso, abarcante, que se insinua por toda parte, enfiando-se pelas casas e até pelas almas adentro. O qual horizonte é tão dilatado e sereno, que a gente é conduzida a todo instante a matutar no Sumo Arquiteto – esse que faz, nas nuvens, palácios mais leves do que os de Oscar Niemeyer – e a conversar sobre temas como imortalidade da alma etc., tal como sucedia, em tempos idos na Praça da Liberdade, às 3 da manhã, ao se encerrar uma serenata.
3-    Noites estreladas em que se ouve, de verdade, a pitagórica música das esferas
4-    A terra é praiana, chã e formosa, com pequenos outeiros mui disfarçados e algumas veredas mui graciosas

O poeta ainda prossegue:

“ sinto-me devolvido à minha paisagem de infância, neste taboleirozinho, meio campo, meio cerrado, onde bodoquei passarinho (sem acertar nenhum) nas orlas de Montes Claros. O ar é seco, à noite vem o friozinho de Belo Horizonte, outro motivo de retrospectivas de ternura....”.

            Assim posso plagiar, sem medo, as palavras desse grande escritor que veio povoar a nova capital nos seus primeiros dias de sede do poder nacional. Posso dizer, como ele, que aqui também encontrei ressonância para os ecos de minha infância e os sonhos da alma inquieta. Interessante notar que semelhante entusiasmo não teve o outro escritor e poeta, o destinatário da carta, Carlos Drumond de Andrade. Mas sua ironia poética foi notável. Vinte e dois dias depois ele respondeu:

... me causou satisfação... Acredito que a identificação com paisagens da infância e crepúsculos belo-horizontinos ajudou a coisa; já eu não teria maior facilidade em incorporar-me ao ambiente, por faltarem aí as tenebrosas montanhas de ferro da minha região e também porque, a essa altura dos acontecimentos e da vida, sinto que vendi minha alma ao Rio”.


             Mas, voltemos à Brasília. Lógico que nesse caso fico com o escritor Cyro dos Anjos. A cidade me seduziu e nela até encontrei as montanhas que Drummond reclamou em sua carta resposta. Na zona rural as encontrei, ainda que bem baixinhas, mas são montanhas. E saudoso como ele, tratei logo de construir meu paraíso perdido, da infância – uma bela chácara, como dizia Proust em sua antológica obra, “Em busca do tempo perdido”. Ou ainda, confirmando outro poeta, Mário Quintana,      posso afirmar que "a gente continua morando na velha casa em que nasceu" e sobre Brasília, o próprio Cyro disse:

 sinto-me devolvido à minha paisagem de infância, neste taboleirozinho, meio campo, meio cerrado, onde bodoquei passarinho (sem acertar nenhum) nas orlas de Montes Claros”.

Mais uma vez incorporo as palavras do poeta, pois, no presente caso, minha infância foi igual, passada nas chácaras e fazendas das Lavras do Funil, e mais, com o belíssimo cenário da Serra da Bocaina emoldurando minha casa em ampla chácara, no lugar onde hoje se localiza o bairro Cruzeiro do Sul, nos altos da cidade. Verdadeiro “menino de roça”, embora tivesse se mudado para a cidade aos três anos, passava todas as férias nas fazendas. Ora, as férias de dezembro, janeiro, fevereiro e julho, representavam quase um terço do tempo e aquela era a verdadeira vida do menino..., na roça, onde caçava passarinhos (mas também, como Ciro dos Anjos, raramente os acertava com bodoques), montava a cavalo, toureava os bezerros mais velhos e bravos, subia em árvores, nadava em ribeirões e lagoas às margens do Rio Grande, soltava pipas ou papagaios nos meses de ventanias. Os amigos eram todos os meninos da redondeza, os filhos dos empregados e os primos que vinham passar temporadas na fazenda. E como eram esperadas as férias. A cidade, a vida urbana, estava sempre associada a um intervalo para a escola e, para o menino, era muito chata aquela obrigação de escola.

Mas e a cidade de Brasília? Como disse o poeta, aqui é espaço para todo lado! Não há aquela sensação de sufoco de arranha-céus, nem tempo nublado, sem linha do horizonte... Aqui tudo é espaço aberto, horizonte de 360º à vista, céu azul estonteante, sol o ano inteiro... E, melhor de tudo..., bosques e mais bosques que envolvem as quadras residenciais do chamado Plano Piloto, o centro da capital. Esses bosques são recheados de frondosas árvores, fruteiras e pássaros de várias espécies. Há, entre outros, sabiás, bem-te-vis e joões-de barro, asa branca, corujas buraqueiras aos montes e até uma grande novidade para o menino-agrônomo ligado à natureza: a curicaca, ave de grande porte e longo bico curvo de quase um palmo e que frequentemente vem, em bando, passear e se alimentar nos bosques que rodeiam os edifícios da quadra-parque residencial.


Parabéns cidade de Brasília neste dia de seu 57º aniversário, 21 de Abril, o mesmo dedicado ao nosso mártir da independência – Tiradentes com seu lema: Libertas quae sera tamen, homenagem dupla, escolhida criteriosamente pelo fundador da cidade, JK. Aqui os brasileiros se encontram e nela vivo há 42 anos, em harmonia com o espaço urbano, com sua belíssima arquitetura, parques e jardins além de seu “mar” azul, o céu, ensolarado o ano inteiro.

Brasília, 21 de abril de 2017


Paulo das Lavras 



 
Esplanada dos Ministérios, vista  do mirante da Torre de TV
Foto do autor-  dezembro de 2006



A Esplanada em construção- estruturas metálicas
Foto: Brasília das Antigas



 
Um avião visto da janela de outro avião




  
O jovem estudante de agronomia em sua primeira visita à Brasilia-1966




 
1-     50 anos depois, no mesmo local



 
 Turma de Agronomia visitando o Palácio da Alvorada                            
 maio de 1966 (o 4º em pé, da esquerda para direita)
Foto: Gilvan de Souza



 
Revisitando o mesmo local, janeiro de 2015 – fachada leste 



 
  JK e seu sonho realizado – 21 de abril de 1960
Foto: Brasília das Antigas




 A beleza verde da Esplanada e da Catedral, vista pelo retrovisor
2015 – foto do autor



 
   Beleza também na secura de agosto
2015 – foto do autor



  O tempo voa na Esplanada dos Ministérios
2016- foto do autor



 
    Minha mulherona no saguão do MEC.  Amor à primeira vista
 foto: Acervo do Palácio do Planalto




 
   Surpreendentemente a mesma mulher recepcionou-me em visita
 ao belíssimo Salão Nobre do Palácio da Alvorada.
Escultura de Brecheret – foto do autor 2016



 
O bucolismo da Serra da Bocaina, emoldurando a casa da chácara,
em Lavras, onde morei até comoletar a faculdade




 
 ...também na chácara, em Brasília, o ambiente rural é lembrado



...até mesmo na superquadra urbana onde plantei goiabeiras para deliciar
 as curicacas que aqui vêm degustar as goiabas bem maduras   
Foto do autor: 2015



   ... bucolismo em plena superquadra do Plano Piloto de Brasília? Sim, uma cena típica e contrastante de dona Severina, catadora de papeis recicláveis.
Foto do autor - 2013



 
 Brasília é espaço democrático para manifestações políticas
Autor e filha- 2015




 Espaço democrático para explorar o sentimento de liberdade, ainda que tardia...
Foto do autor- 2016 


  ... e fazer-me relembrar aquele que ocupa o centro da principal praça de Vila Rica, a capital do ouro, berço da Inconfidência e e local do primeiro grito de independência, que culminou com o enforcamento  de Tiradentes, em 1789. Em vez de apenas a cabeça esquartejada, hoje ali está de corpo e "alma".
Foto 1968- autor



  Além da liberdade e expressão política, a Esplanada,  de Brasília,  garante também a liberdade religiosa. Preparando os tapetes para a Corpus Christi, juntamente com a repórter.
Foto- 2015, autor