domingo, 30 de julho de 2017

Minha Árvore, minhas raízes invisíveis

         Naquele ano de 1982 plantei, em frente à fachada principal da casa da chácara, duas belas mudas de pinheiro de natal, a araucaria excelsa. Algum tempo depois fotografei as crianças ao lado delas já enfeitadas nas festas natalinas. Contei a elas que aquelas duas árvores iriam crescer muito..., mais de 25 metros de altura, ficariam enormes e seriam vistas lá de longe, a uns quatro quilômetros, na parte mais alta da estrada de chegada. As árvores ficariam muito bonitas, como dois guardiões da nossa casa, como aqueles guardas da porta do Palácio do Planalto que elas, as crianças, tanto gostavam de ver. Os soldados do Batalhão de Guarda Presidencial pareciam duas estátuas, imóveis, com enormes lanças na mão. As crianças ficaram admiradas, como a imaginar quão alto aqueles pinheiros, tão pequeninos ficariam e pareciam mesmo não acreditar no que eu dizia. E ainda completei a aula, durante o plantio: vocês, crianças, também crescerão, terão filhos e eu serei vovô de cabelos brancos, velhinho. Também os passarinhos virão fazer seus ninhos nos galhos, outros apenas repousariam e cantariam em bela sinfonia de primavera. Outros, ainda, tentariam quebrar seus frutos em forma de castanha. Doces devaneios para estimular os sonhos das crianças que ali estavam ao redor, “ajudando” no plantio das duas belas árvores.

            Até os três ou quatro anos de idade daquelas árvores foi possível enfeita-las com bolas de natal, ritual que se repetia com prazer e sempre registrado em fotos. Depois não mais, em razão do enorme porte. Os passarinhos vieram como previsto, sabiás, bem-te-vis, sanhaços, asa branca - aquela enorme pomba selvagem, pardais, tico-ticos, tizius, canarinhos da terra – também conhecidos por cabecinha-de-fogo e recentemente, pela primeira vez, pasmem... um bando de tucanos do bico amarelo, também fotografados, para o deleite de toda a família que, felizmente, estava presente, numa bela manhã de sol e pode apreciar essa maravilha, tucanos do bico amarelo. Os primeiros pássaros a fazerem ninhos nos pinheiros foram os bem-te-vis. Bem tecido e ancorado, o ninho prestou-se várias vezes ao acasalamento e consequente revoada de filhotes. Tempos depois, ninguém poderia imaginar que aqueles dois pequenos passarinhos “entortaram” o tronco do pinheiro. Como? Ah... conte outra..., disseram alguns incrédulos. Mas a verdade é que o tronco entortado ainda está lá, de pé, mais de trinta anos depois. Mas, como pode um pequeno passarinho entortar o tronco de uma enorme árvore como aquela? Simples, explicava eu aos incrédulos. O ninho, bem volumoso e fortemente entrelaçado aos galhos, encharcava-se com as chuvas e tornava-se excessivamente pesado, vergando o tronco da jovem árvore. Tempos depois, ao olhar para cima notava-se, naquele gigante de mais de vinte e cinco metros de altura, um desvio acentuado assemelhando-se a um ligeiro “S”, logo acima da metade do grosso tronco. Os visitantes ficavam intrigados, difícil acreditar que aquilo fora obra de um pequeno passarinho, o bem- te vi.

            Os mais assíduos nidificadores naqueles dois pinheiros foram as pombas selvagens, conhecidas por asa branca ou ainda pomba trocal (um pouco maior e mais graciosa que a juriti). Não raras vezes seus ovos caiam, pois nunca vi ninho tão mal feito, pequeno e ralo. Tão ralo que se podiam ver os ovos quando se olhava por baixo. O simples ato de sair do ninho, um pouco mais apressada, já fazia com que os ovos ou mesmo os filhotinhos caíssem ao chão. Tivemos algum trabalho em recolar esses filhotes. Certa feita, já grandinhos, caídos, cuidamos deles. Ficaram domesticados e não saíam da cozinha, ou quando muito davam uma volta, voavam até alguma árvore e voltavam para comer na mão e até passeavam no ombro ou na cabeça do caseiro que foi o principal cuidador. Certa vez meu irmão se deixou fotografar com elas se alimentando em suas mãos. Pagou maior mico em praça, pois levei as fotos e as exibi aos seus amigos, inventando, antes, que um “velho feiticeiro” passara em minha chácara e demonstrou seus poderes de fazer com que aves selvagens o obedecessem, vindo se alimentar em suas mãos e ainda conversar com ele. Contava a história, fazia mistério e em seguida mostrava as fotos... gozação geral para cima do suposto “feiticeiro”.

             A maior surpresa foi mesmo a passagem do bando de seis tucanos do bico amarelo. Pousaram no pinheiro, atacaram os frutos, grunhiram bastante (alguém conhece o canto dos tucanos? Não é bonito, mais parece um grunhido) e depois de uns dois minutos revoaram, não sem antes de serem registrados em fotos, ainda que com o celular sem muito alcance. Visitantes menos desejados eram os gaviões carcarás, prontos para atacar os filhotes de bem-te-vi e pomba trocal. Sempre atentos aos escândalos das brigas entre predadores e ameaçados, cuidávamos de espantar os intrusos rapineiros com simples assobios ou bate-palmas e assim salvar os filhotes em seus ninhos.

            O tempo passou e tudo aconteceu como previ para os filhos. Eles cresceram, tiveram filhos que hoje já estão com seis e sete anos, a alegria do vovô de cabelos encanecidos, mas com a alma jovem, a correr com eles pelos quatro cantos da chácara, jogar bola, pescar, nadar, cavalgar, soltar pipas ou ainda voar com aeromodelos de aviões e helicópteros. Por seu lado as árvores cresceram, antes enfeitadas no natal, depois as sombras e principalmente a beleza natural, avistada de longe como um marco do território. Abrigos e celeiros, para os passarinhos que se alimentam de seus frutos silvestres, ninhos, brigas entre eles, cantorias sem fim, muitos filhotes. Dois desses filhotes resolveram transitar e voar pela cozinha e varanda, passear de carona no ombro ou na cabeça das pessoas.... Maravilhas da natureza que nos levam a desejar sempre estar ali, embora só usufruíssemos desse paraíso nos finais de semana.

 Mas, a mesma natureza que nos proporcionou tudo isso, também nos tomou de assalto uma daquelas belas árvores. Um raio fulminante descarregou-se sobre ela. Como não estava presente, não notei o estrago nos primeiros dias. Semana seguinte havia leve descoloração na ponteira do pinheiro. Noutra semana um pouco mais. Numa meticulosa inspeção constatei o pior. Tinha sido uma descarga atmosférica ocorrida durante uma tempestade, então confirmada pelo caseiro. Na esperança de que o estrago pudesse ser superado, não a sacrifiquei. Doía-me a alma cortar uma árvore ferida, de quase dois metros de circunferência e mais de 25 metros de altura. Haveria de se recuperar. Mas, infelizmente, depois de uns cinco meses estava totalmente seca e os vendavais com as chuvas de verão já haviam decepado seu terço superior. Não me restou alternativa senão contratar especialistas para abatê-la por completo. Verdadeiro golpe na alma. Ali jazia quem nos alegrara por tanto tempo..., exatos 32 anos. Definitivamente isto não estava nos planos.

            Retirados os escombros restou um vazio, cenário mutilado, deixando-nos um buraco na alma. Só mesmo quem está acostumado com a natureza e as belezas de um jardim, sabe entender e avaliar esse sentimento. Parece que os pés da gente têm raízes invisíveis, disse certa vez um renomado paisagista. E essa raízes invisíveis nos “plantam” no chão e fazem com que nos identifiquemos com as plantas de nossos jardins. E raízes precisam de cuidado, de amor. Jardins também. Plantar árvores e flores é colher felicidade, pois até mesmo uma simples árvore plantada é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento, pois plantamos sabendo que talvez nem iremos comer dos seus frutos ou sentar à sua frondosa sombra… Plantamos pensando naqueles que comerão de seus frutos e se sentarão à sua sombra. E isso bastará para nos trazer felicidade. E neste caso, do pinheiro de natal, ao contrário colhi tudo isso e muito mais. Era uma árvore que “falava”. Falava? Sim pela sua beleza pelos pássaros que nela se abrigavam e se alimentavam, cantavam e alegravam o ambiente. Seria loucura ouvir as árvores, os jardins? Que nada, até Guimarães Rosa os ouvia: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados”.

            Mas e a tristeza pela perda de uma árvore? Bem..., é normal o sentimento de perda. Para começar, tratava-se de uma belíssima árvore, plantada e cuidada com zelo e ao final desfrutando de tudo que ela proporcionava, até mesmo como moldura natural da casa. Paisagem prontamente identificada pelos netinhos, ainda na estrada, bem distante, ou até mesmo em fotos aéreas. Não se pode esquecer que ao plantar um jardim nele depositamos a felicidade dos tempos de infância e das alegrias passadas como se fosse uma busca do tempo perdido. Assim, ele carrega uma elevada e forte carga emocional, além do gosto na escolha das espécies de flores, árvores e demais complementos paisagísticos. Mas, isto é diferente da melancolia, aquela que só chora as alegrias perdidas, sem esperança de que elas possam ser recriadas. E a propósito, vejam que belo poema, de Angelus Silésius:
                “Se, no teu centro um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar”.

            Os jardins são nossos Paraísos. Fazemos parte da natureza. As flores são como as crianças, trazem amor e vida e têm o poder de desarmar, emocionar as pessoas. E como as crianças, trazem-nos a lembrança da renovação da vida. Criei meu jardim e já recriei a árvore perdida. Se da primeira vez as filhas ajudaram a plantar e cuidar, desta vez os netinhos a replantaram e estão cuidando da nova árvore, no mesmo lugar. Esperança que se renova, nos velhos e nas crianças que aliás, andam no mesmo compasso, como disse nosso poeta maior, Rubem Alves.

Assim é a vida. Acabou a tristeza, renasceu a esperança com a nova árvore ali replantada. Não foi a toa que Proust disse que:  "os verdadeiros paraísos são os que perdemos"    e o poeta Mário Quintana ensinou que  "a gente continua morando na velha casa em que nasceu".

 Para quem nasceu e cresceu em meio à natureza, na zona rural e na chácara ao redor da cidade, faz sentido.  Paraíso sempre!
Plante um jardim, faça seu próprio paraíso e more nele.


Brasília, 05 de abril de 2015

Paulo das Lavras


O replantio de um pinheiro de natal. A segunda geração
cuidando  de recuperar a grande perda. Plantar uma árvore
é renovar as esperanças  -  2014


O pinheiro que servia para decoração de natal. Simone e
o menino do caseiro – dez 1984


A imponência dos dois pinheiros, vista de cima,
como torres de vigia da casa, 20 anos depois 


As majestosas “torres de vigia” vistas por trás da casa


Os pinheiros serviam de abrigo dos pássaros. Filhotes de pomba trocal (asa branca)
caíam do ninho. Na foto uma dessas, já adulta, criada em casa,
vinha comer na mão do visitante e na hora do lanche voava até à cozinha 


Qualquer que fosse o visitante e se estivesse com comida na mão,
lá ia a “Titinha” pedir a sua parte. Hora do almoço e lanhe, na varanda
 ou churrasqueira,  sempre tínhamos sua companhia.Viveu mais de
15 anos assim, voava do alto dos pinheiros e buscava a companhia das pessoas



Numa tempestade de verão um raio fulminou um dos pinheiros 


O operário com sua motosserra. Ao colocá-lo abaixo, também “cortou” meu coração...


...que viu ser abatido o gigante de mais de 25 m de altura e 32 anos de idade,


...deixando dois grandes vazios, na paisagem e na alma que teve suas
 raízes  invisíveis também cortadas
  

Restou apenas o irmão gêmeo...um gigante solitário também maltratado pela tempestade


..mas, as crianças da geração seguinte cuidaram, com muito carinho, de replantar outro pinheiro de natal,
recompondo o nosso “paraíso” que foi devastado por uma tempestade


... e um ano depois já estava com dois metros de altura – janeiro de 2015


Minhas raízes invisíveis se estendem, entre tantas árvores que plantei, pelos pés de peras cujas frutas, em
abundância, balançam sobre o tapete rosa do ipê em plena florada de julho


... e também por muitos canteiros de flores, cujas raízes embora frágeis,
 em relação ao vigoroso tronco da mangueira em primeiro plano à esquerda da foto,
 todas elas fortalecem as raízes invisíveis de minha alma, nascida, criada e
formada na agronomia, em meio à plena natureza.





sábado, 15 de julho de 2017

A morte chega ao Seminário

Parte 4.6.4 de: Um Seminário na década de 1950 (*)

Administrar um internato com 70 meninos, de idades entre os 12 e 17 anos, não é tarefa fácil. Além das rotinas no campo da educação formal, abrangendo atividades em sala de aula e religiosa, é preciso cuidar da saúde física. Para tanto, as horas de lazer precisam ser preenchidas com atividades apropriadas e contar com instalações adequadas. Havia no seminário de Itaúna amplos espaços de lazer, enorme salão de recreio com inúmeros brinquedos, atividades de artes plásticas e musicais. Além disso, contava-se com três quadras de esportes, com dois campos de futebol, quadras de tênis, voleibol, basquete, espirobol e barras para exercícios. Porém, não havia piscina e certa vez fomos todos praticar a natação na chamada Praça de Esportes da cidade, situada a poucos quarteirões do Seminário. Quase uma centena de meninos dentro da enorme piscina olímpica com dois metros de profundidade. Verdadeira festa aquática com todos se divertindo. Tocou o apito e todos se retiraram da água depois de quase duas horas de lazer. Fui dos últimos a sair, embora não tivesse arredado da área mais rasa, onde se podia ficar de pé, com a água na altura do pescoço e assim descansar das ligeiras braçadas ofegantes de quem é principiante na natação. Ao chegar ao vestiário encontrei as vestes de um coleguinha que não mais estava na piscina, pois fui o último a deixa-la, sob ordens do Padre Francisco, o supervisor daquele dia. Corri a anunciar ao supervisor, pois tínhamos que nos apressar para alcançar os demais que já ganhavam a rua. Confirmou-se, pelas iniciais gravadas em cada peça – JWS – que as roupas pertenciam ao Baianinho, José Walter dos Santos, menino franzino, moreninho de apenas 12 anos de idade e quase sempre estava ao meu lado, inclusive na foto oficial dos seminaristas. Companheiro nas partidas de tênis de mesa, jogos de dama, torrinha e espirobol.  Vistoriados rapidamente os sanitários e salas vizinhas, chamados insistentes pelo seu nome, sem resultado. Pânico! Padre Francisco, que mancava de uma perna, pois era sobrevivente da segunda Guerra Mundial, quando defendia seu país, a Holanda, trocou rapidamente de roupa e pulou na piscina. Dois outros funcionários do local fizeram o mesmo. Mais três seminaristas, da turma dos maiores e melhores nadadores, voltaram da rua e também pularam na piscina. Também corri para a beirada da piscina, aos prantos, pois um dos melhores amiguinhos, companheiro das horas de lazer estava ali, no fundo da piscina. Desesperado e com as roupas de Baianinho nas mãos ainda ouviu o comando do padre Francisco, que liderava a busca. Chamou a todos, totalizando seis nadadores. Dirigiram-se para a parte mais funda. Deram-se as mãos formando uma corrente que abrangia a metade da largura da piscina. De pé e mãos dadas, submergiam e faziam arrastão no fundo escuro da piscina, a dois metros de profundidade. E assim caminhavam uns dois ou três metros pelo fundo, voltando à tona para respirar, sem soltar as mãos. Aquela corrente caminhou alguns metros, voltou ao início da piscina cobrindo a outra metade de sua largura, sempre com o mesmo procedimento. Minha agonia aumentava a cada afloramento da equipe de resgate e sem que o encontrassem.


Ao pressentir o pior com o coleguinha, veio-me à mente o filme de meu próprio afogamento, quando, então, dois nadadores afloraram à superfície trazendo o corpo de Baianinho, encontrado a poucos metros da parte mais funda da piscina. Pânico, maior ainda ao avista-lo inerte nos braços daqueles que o resgataram. Bateu o desespero e então percebi o maior pavor de toda minha vida, maior que todos os sentimentos somados: o próprio afogamento quando ainda criança, muito pequeno. E de novo, voltei à infância, aos três anos. Rodou o filme do pesadelo real quando fui empurrado, acidentalmente, para dentro do grande reservatório d´água e depois de desaparecer fui resgatado por minha mãe, Só me lembro que, no colo dela, expelia muita água pela boca, nariz e até parecia que também os olhos e ouvidos expeliam o líquido, numa operação desesperada de salvamento. Marcas indeléveis na alma e que infelizmente ali, dez anos depois, já em 1958 se repetiam com aquele coleguinha que não teve a mesma sorte que tive..., pois ele perdeu a vida, afogado. Profunda dor cravada na alma e que se repetia de forma mais trágica ainda, pois de nada adiantaram as massagens abdominais, cardíacas e respiração boca a boca, ali no pequeno e inerte Baianinho. Apenas uma espuma branca fluía pela boca e nariz de José Walter, a cada massagem aplicada em seu abdome. Triste sina. Reviver meus próprios momentos de afogamento e ressuscitação de 10 anos atrás, porém, agora com o infortúnio da morte do coleguinha de 12 anos. Não é a toa que ainda hoje, mais de sessenta anos depois de meu próprio acidente, ainda acordo frequentemente, a altas horas da noite, sobressaltado, ofegante, coração a mil batimentos com terríveis pesadelos de afogamento em grandes volumes d´água, geralmente no Rio Grande, suas lagoas ou até mesmo na ponte Rio-Niterói onde, efetivamente, quase entrei em pânico ao atravessá-la dirigindo o carro com a família a bordo. E esses pesadelos se repetem e reproduzem, como ali, diante daquela piscina, aquele pavor acontecido em distante passado. Traumas indeléveis, gravados na alma, prontos a disparar quando provocados por gatilhos de ocasião. Por um lado, o mais traumático, o menino no colo da mãe após a ressuscitação e de outro a morte do coleguinha nas mesmas circunstâncias. Assim é a vida.  E devemos ser gratos a Deus por nos ter poupado e por tanto tempo.


Encontrado o corpo do coleguinha, deixei o local e caminhei sozinho de volta ao Seminário, chorando, desesperado e com parte de suas roupas nas mãos e um tanto desnorteado no caminho, a ponto de uma senhora oferecer ajuda para levar-me até o Seminário, após relato da tragédia. Cheguei ao Seminário e todos já estavam no refeitório para o almoço. Dirigi-me à mesa dos padres e relatei o ocorrido. Consternação geral. Preparativos do velório, padre Cáuper viajou imediatamente para o sul da Bahia para buscar os pais de José Walter. Passamos a noite inteira velando o corpo, na Capela do Seminário. Ele estava todo paramentado, vestido de batina (túnica) preta e sobrepeliz branca, uniforme dos coroinhas e que tantas vezes usei no seminário em atos litúrgicos. Revezávamos, aos prantos, de hora em hora com turmas de dez seminaristas de cada vez. Meu turno foi de uma às duas da madrugada. Orávamos em Latim e cantávamos as homilias próprias da liturgia do réquiem, especialmente o clássico Dies irae:

Dies iræ, dies illa,  ....                             Dia da ira, aquele dia
Solvet sæclum in favilla,                        Em que os séculos se desfarão em cinzas
Teste David cum Sybilla!                       Assim testificam Davi e Sibila!
Quantus tremor est futurus,                    Quanto temor haverá então
Quando judex est venturus,                    Quando o Juiz vier
Cuncta stricte discussurus!                     Para julgar com rigor todas as coisas!

“Correrão todos ao trono quando, em meio ao eterno sono, a trombeta ressoar.
Morte e mundo se espantam, criaturas se levantam e ao Juiz responderão.
Vai um livro ser trazido, no qual tudo está contido, onde o mundo está julgado.
Quando Cristo se sentar o escondido vai brilhar, nada vai ficar impune.
Vós, ó Deus de majestade, vivo esplendor da Trindade, entre os eleitos nos contai”.


Esta homilia é de grande profundidade espiritual, pois nos leva a meditar sobre a morte e nos prepararmos para a chegada de nosso próprio dia, quando tudo se transformará em cinzas e o Juízo Final julgará com rigor todas as coisas.  Cantado, em Latim, com as partituras regidas pelo nosso maestro, Pe. Luiz, esse cântico de réquiem nos levava às lágrimas, pois não há nada mais profundo do que pensar na própria existência e no encontro com o Juízo Final no caminho para a Glória de Deus. É o encontro com a majestade de Deus, maior que o Sol, a Terra e as Estrelas do Universo. Será, segundo a liturgia romana, um dia de ira para aqueles que vivem no pecado, mas de glória e júbilo para aqueles que temem ao Senhor Deus, pois a verdade será revelada. Todos somos responsáveis por nós mesmos, pelos nossos atos e não adianta querer culpar os outros pelas nossas faltas, pois Deus é Justiça.  Essas são as mensagens da liturgia desse cântico, de mais de 700 anos, adotado pela Igreja Católica Romana. Ainda hoje, quando assistimos pela TV as cerimonias fúnebres de alguma alta autoridade eclesiástica, esse cântico ainda nos emociona e evoca aquele triste dia de luto no Seminário.


Requiscat in pace! Descanse em paz! Assim terminávamos o culto nas cerimônias fúnebres. E no silêncio da madrugada, nossas orações ecoavam mais sonoras e parecia que Deus ali estava a nos ouvir, sobretudo aos angustiados meninos, sozinhos, longe dos pais e cujas lágrimas vertiam copiosamente ali, na solidão da dor da perda irreparável, sem o carinho da família, dos pais que estariam prontos a ampara-los.


 No final da tarde do dia seguinte chegaram os pais do menino e logo em seguida o féretro foi conduzido com grande acompanhamento até o carro especial que o levaria de volta, com seus pais, à sua terra natal, no sul da Bahia. Adeus dolorido ao fechamento da porta e partida do veículo, pois tínhamos perdido para sempre o coleguinha. Foram dias de profunda dor, mas, com o passar do tempo voltamos à piscina, porem, os meninos eram obrigados a ficar em duplas, inseparáveis, um cuidando do outro, de modo a evitar-se descuido em caso de qualquer acidente. Infelizmente, eu mesmo nunca mais voltei a nadar naquele local, embora todos os fins de semana para lá nos dirigíssemos. A memória dolorosa da perda do amiguinho marcou indelevelmente o menino, pois foi o primeiro a descobrir sua falta e ainda acompanhou seu dramático resgate do fundo da piscina.  Nas atividades de lazer ele estava sempre por perto, sempre a meu lado, até mesmo na foto oficial dos seminaristas, conforme destaque abaixo.


José Walter dos Santos, o Baianinho, ao centro da foto, em destaque, bem ao meu lado. Expressão triste, humilde, sempre a procurar a proximidade dos amigos. Duro golpe, assistir a seu resgate no fundo da piscina.

Cinquenta e cinco anos depois, em nossa visita nostálgica ao Seminário, verificamos que havia sido construída uma bela piscina nas dependências do Colégio Sant´Anna, antigo Seminário e foi inevitável a recordação da tragédia com o coleguinha. Terminada a visita, indaguei ao diretor se ainda existia a “praça de esportes” da cidade. Levou-me ao local, cujo rumo aproximado lhe apontei, pois o trajeto, a pé, foi por demais demarcado naquele ano que ali passei.  Lá estava a mesma piscina e mais..., o vestiário era o mesmíssimo, pequena construção, com telhas francesas, janelas metálicas basculante e portas estreitas, numa incrível semelhança aos vestiários da piscina do Lavras Tênis Clube. Quanta lembrança das dores que ali passamos. Consternado, fotografei o local, debrucei-me sobre o alambrado que separava a piscina. Fechei os olhos, “mergulhei” no passado e “me vi” ali, aos 12 anos, de pé, acompanhando o resgate do corpo inerte de Baianinho, já sem vida e que não teve a mesma sorte que eu tive quando resgatado por minha mãe em um grande reservatório de água, na fazenda. “Vi, bem ali à minha frente”, no filme de minha memoria, o padre Francisco com calção escuro e o corpo cheio de cicatrizes de guerra, comandando a operação de resgate e saltar rapidamente na parte mais funda da piscina. Revivi o desespero da equipe, quando todos emergiam, várias vezes sem que o arrastão com os pés no fundo da piscina encontrasse o corpo naquelas águas, que diferentemente de hoje, cristalina e transparente, estavam com um verde escuro, turvo, que impedia a visão em qualquer ângulo e distância. Triste cena, ali revivida, repassada na mente, in locco, na mesma piscina, como a ver o menino, de calção preto - esse era o uniforme de natação, soltando golfadas de espuma branca a cada movimento de massagens em seu abdome. Deixei o local muito emocionado, com lágrimas nos olhos, mesmo tanto tempo depois, com sentimento triste, como a buscar explicação para o inexplicável..., “a morte” que passou pelo Seminário naquele longínquo ano de 1958 e cerca de dez anos antes igualmente me perseguira, quando fui salvo pela corrida desabalada de minha mãe que conseguiu “pescar” o menino, resgatando-me do fundo do reservatório e ressuscitando-me logo em seguida. Renasci, mas, ali no Seminário, infelizmente o padre Francisco e sua equipe não tiveram a mesma sorte. Choraram amargamente, como todos nós, coleguinhas de José Walter dos Santos.


Assim é a vida e sou grato a Deus por ter-me concedido uma segunda chance, aos três anos de idade. Não só uma segunda chance, mas quatro outras vezes, uma doença gravíssima aos dois anos de idade e três acidentes aéreos, um em Belo Horizonte e dois nos E.U. A, quando lá trabalhava. Se aqui estou contando essas histórias é para que se louve a Vida, um privilégio, o bem mais precioso que Deus nos concedeu. Que meus filhos, netos e amigos as tomem como exemplo de humildade e gratidão a Deus pelo dom da vida. Em tudo dai Graças a Deus, sobretudo quando se sobrevive por cinco vezes aos imprevistos quase fatais que a vida às vezes nos reserva.

Brasília, 15 de julho de 2017


Paulo das Lavras 

O Menino Seminarista, aos 12 anos, na cidade e Itaúna –MG. Éramos uns 70 meninos. Menos de dez se tornaram padres. Mas, para o menino (identificado com um círculo), o mais impressionante foi que os três coleguinhas que estão a meu lado (Miguel e Pedro, à esquerda e José Walter dos Santos- Baianinho. à direita da foto e bem encostado a mim), partiram prematuramente. Baianinho se foi logo que chegamos ao Seminário, afogado na piscina. Pedro Júlio de Souza foi vitimado por insidiosa doença, o mesmo acontecendo com Miguel Cesar Pedrotti Massimo. Ambos faleceram com pouco mais de sessenta anos de idade. Essa foto retrata, muito bem, a alegria de menino e nos traz boas recordações, da inocência, da fé e crença na missão sacerdotal. Pena que a vida, às vezes, nos prega algumas peças que nos privam da presença dos amigos de infância. A morte passou por lá, nos assustou muito. Levou o  Baianinho.

              Mas, em compensação, a vida me brindou com agradável surpresa em relação a Pedro e Miguel. Nenhum deles se tornou padre, mas, por ironia do destino ambos também se tornaram engenheiros agrônomos pela Esal/Ufla, tal qual aconteceu comigo um pouco antes. Coincidência maior, ainda, foi que o Menino das Lavras, o primeiro a deixar o Seminário, foi professor de ambos, Pedro e Miguel, no curso de Agronomia da antiga Esal, em 1969. Foi meu primeiro ano como professor de Construções e Saneamento e lá estavam eles, os dois antigos coleguinhas do Seminário, agora como alunos do 4º ano de agronomia. Gostosa coincidência, boa surpresa o destino me reservou.

Não nos tornamos padres, nenhum de nós, mas tivemos as mesmas vocações: primeiro, o sonho de infância..., ser padre e depois na juventude: Engenheiro Agrônomo. Se por um lado não pudemos alimentar a alma dos fiéis, pelo menos os alimentamos nutrindo o corpo com alimentos produzidos com tecnologia e responsabilidade social na profissão de Engenheiro Agrônomo. Deus sabe muito bem determinar o destino de cada um. O sacerdote alimenta a alma e o agrônomo alimenta o corpo.  Aquele pastoreia o rebanho do Senhor. Este pastoreia na pecuária e cuida das plantações de cereais. Assim é a vida! Em tudo dai Graças




O velho Seminário, de padres holandeses, em foto de 1958, ano em que o menino lá estudou



O Menino das Lavras (primeiro à esquerda), bom no espirobol ou bola americana no mastro.       
                                      Não existia ainda o tênis e todos usavam Keds.



O menino das Lavras, coroinha ajoelhado à direita. Batina, sobrepeliz e escapulário, aos 12 anos,

 no Seminário de Itaúna-MG. Baianinho lava as mãos do celebrante, numa missa solene.



55 anos depois de passar um ano no internato, encontrei essa bela piscina e
moderno vestiário então inexistentes nas quadras de esporte do Seminário




A piscina da “Praça de Esportes” da cidade de Itaúna, com o mesmo vestiário ao fundo.
 Apenas a água estava mais límpida, transparente e se assim estivesse há 55 anos,
talvez o resgate tivesse sido realizado mais de imediato e salvo o menino que
 se afogou na parte mais funda que aparece em primeiro plano.




Vista da mesma piscina a partir dos vestiários – Praça de Esportes da cidade de Itaúna-MG


(*) Nota: Esta é a segunda postagem de parte da crônica narrativa “Um Seminário na década de 1950”.  A obra compreende os capítulos de I a VII. A presente postagem se constitui na parte  4.6.4 .  As demais serão publicadas oportunamente neste blog, com a seguinte estrutura editorial:
Título geral: Um Seminário na década de 1950
II- O despertar da vocação no menino
III- a viagem para o distante Seminário
IV- A vida no Seminário
4.1- a rotina diária de um internato
4.2- os seminaristas
4.3- os estudos do colégio  
4.4- A religiosidade                
4.5- o lazer e cultura
              4.6- Eventos marcantes
                      4.6.1 - Fundições e Tecelagem Itaunense 
                      4.6.2- Morro do Bonfim- a capela
                      4.6.3- Copa do Mundo de 1958
        4.6.4- A morte chega ao Seminário

V – A viagem de volta - O fim

VI- O reencontro – 55 anos depois

VII- O legado 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Amigos que se vão

Amigos nunca nos deixam, ainda que partam para sempre. Permanecem eternamente em nossos corações pelos laços de união e companheirismo que criamos e cultivamos ao longo da vida. Assim foi com Luiz Onofre Salgado, que ontem partiu para sempre. E para nós, que moramos distante, a notícia tem um impacto muito grande, sobretudo quando ainda passados poucos dias havíamos recebido ligação daquele amigo, cumprimentando-nos, desejando saúde e respondendo que sua saúde estava bem. 

Em 1964 entrei na faculdade para cursar agronomia. Anos de chumbo, não só na politica, como também nos trotes aos calouros, alguns até violentos. Veteranos tinham exacerbada gana sobre os calouros. Banhos no lago do jardim na praça central, com roupa e tudo, a qualquer hora, trotes sem fim partindo de todos eles, os antigos alunos, chamados de veteranos. Mas, havia um em especial que se distinguia dentre todos pela finesse, simpatia e empatia ao tratar com pessoas. Natural de Nepomuceno foi logo me dizendo conhecer meu tio e sua família que lá moravam. Amizade logo no início e parecia que já nos conhecíamos havia tempo, tal o grau de empatia. Nunca me aplicou um trote, quando calouro de cabeça raspada e portando uma ferradura de cavalo dependurada no pescoço (para simbolizar a “burrice” do calouro, escravo dos veteranos...). Ao contrário, ele deplorava a grosseria, a violência dos trotes e não concordava com os demais que os praticavam com grande humilhação para os calouros. Nasceu daí a amizade que aumentou com os contatos mais frequentes, inclusive na sede social do Centro Acadêmico de Agronomia-CAA, para o qual fui escolhido como diretor social, com a responsabilidade de fazê-lo funcionar de terça a sábado, com horas dançantes, ao som de Ray Conniff, Billy Vaughn, Paul Muriat, Percy Faith, Bert Kaempfert, Elcio Alvares, Românticos de Cuba, Mantovani e tantos outros LPs de sucesso. Ali ele sempre comparecia com seus colegas de turma e aos sábados com sua namorada Ana Maria. Formavam um belo par, admirado por todos à época. Mais tarde casou-se com outra, divorciou-se depois de algum tempo e há uns dez anos casou-se novamente, com a esposa que o acompanhou e dele cuidou com dedicação até os instantes finais.

Luiz Onofre formou-se em agronomia no ano de 1964. Trabalhou inicialmente na Bayer, em São Paulo e em seguida foi convidado para integrar o quadro docente da Esal/Ufla, ali se aposentando para então iniciar atividades empresariais na área de testes de produtos fitossanitários. Frequentava Brasília constantemente, quer na qualidade de chefe de departamento da universidade, ou chefe de gabinete da diretoria da antiga Esal, aqui discutindo projetos junto ao MEC, na Secretaria de Educação superior, onde trabalhei por 35 anos, ou em outros ministérios como Agricultura, Indústria e Comercio e outros órgãos da administração federal. Recepcioná-lo na capital era um prazer, sobretudo quando convidado para almoço em família. Certa vez compareceu a uma recepção que oferecemos, em nossa casa, ao novo diretor, Prof. Juventino Júlio de Souza, então empossado pelo Ministro da Educação. Em qualquer ocasião sempre irradiava simpatia, alegria contagiante, como mostram algumas fotos de nosso arquivo. Apenas para ilustrar, há cerca de uns quarenta dias, ligou-me, depois de obter meu numero (disse-me que havia perdido a agenda no celular e então o recuperara com meu irmão, com quem se encontrou casualmente na rua), para cumprimentar-me pelo aniversário transcorrido havia uns vinte dias. Fiquei honrado com a especial deferência e disse-lhe duas coisas: aniversário comemora-se a qualquer hora e receber os cumprimentos e votos de saúde dos amigos também pode e deve ser o ano todo, de modo que nem precisava se escusar pela demora e que brevemente retornaria igual gentileza em seu aniversário.

Professor Luiz Onofre nos deixa muito entristecidos com a sua partida para sempre. Está sendo velado, nesta manhã, no Salão Nobre da Universidade, a mesma que ajudamos, ele, eu e tantos outros a construir física e institucionalmente. Muitas dessas realizações em conjunto ainda contarei, passadas aqui e na França, onde o levei certa vez para prospecção de acordos de cooperação técnica na área de fitossanidade. Para nós que não pudemos estar presente, juntarmo-nos aos colegas nesta hora de dor para o adeus final, é sim mais doloroso. Dia de luto na alma. Mas, como disse antes, permanecerá eternamente em nossos corações. Apenas mudou de endereço, cancelou o número de telefone celular que não atende mais, mesmo quando chamado nesses dois últimos dias de agonia no Hospital da Beneficência Portuguesa, onde fora se tratar. Por isso, não cumprirei a promessa que lhe fiz a uns dias atrás, de ligar-lhe na próxima semana, dia 26 de junho, no seu aniversário. Ligarei, sim, mas de outra forma, em oração aos céus agradecendo a Deus pelo amigo que lá está e que deixou-nos muita saudade. Estará, sim, para sempre, ao lado do Altíssimo que nos ampara. Em nossos corações também permanecerá par sempre, com aquele sorriso de alegria que mostra nas fotos! Descanse em paz, Amigo!

Brasília, 19 de junho de 2017


Paulo das Lavras




Dezembro de 1987, Luiz Onofre, alegre, sorridente, na recepção em minha casa, em homenagem ao novo Diretor da ESAL, empossado horas antes pelo Ministro da Educação.
Foto: José Alves de Andrade (Zé Planche), Cida esposa do Diretor Juventino e Luiz Onofre a meu lado.
Atrás, o Diretor Luiz Augusto de Paula Lima que acabara de repassar o cargo ao novo diretor.



Na mesma festa, Eros Gomide, Agostinho, - meus irmão, Anizio Pereira da Silva,
Silas Costa Pereira que viria a ser o próximo Diretor da Esal depois do mandato de Juventino,
e o inesquecível Luiz Onofre.



Festa de 50 anos de formatura na Esal, 2014. Luiz Onofre e seus colegas
Luiz Gomes Correia, Daniel Lima Barrios e Roberto Costa Carneiro, o famoso goleiro Peré
também falecido recentemente, em agosto de 2016.
Amigos que se foram. Saudades e muitas histórias que fazem parte de nossas vidas.
Foto: Maria Lúcia Cunha Carneiro