sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

A cantora Wanderléa em Lavras


Lançado há menos de duas semanas, o livro “Wanderléa... Foi assim. Autobiografia” faz inúmeras referências à cidade de Lavras, onde a cantora morou até os seis anos de idade. Sua casa, cercada de árvores, situava-se à rua Dr. Gammon. Dali costumava pegar carona nos carros de boi até o bairro do Aquenta Sol, conta a Wandeca da turma da Jovem Guarda dos anos 60. Gostava de cantar na Rádio Cultura de Lavras, para onde foi levada por sua vizinha Dona Nhanhá que, um dia, a convidou para cantar numa reunião religiosa em sua casa. Na Rádio, fez referência a um “Regional” que acompanhava as músicas/canções que as crianças interpretavam. Imagino que poderia ter sido o Regional de José Mattioli, o mesmo que nos meados da década de 1950 tocava no programa mirim, Clube do Guri, na mesma rádio. Algumas vezes frequentei aquele programa, no auditório da Rua Benedito Valadares e depois no salão paroquial.  Wanderléa, a Leinha, como era chamada a menininha, aos quatro anos, causou grande comoção numa quermesse, em Lavras, ao cantar ao microfone segurando sua linda boneca loira pelos pés e com a cabeleira  “varrendo” o chão. Aos seis anos de idade a família de Wanderléa se transferiu definitivamente para o Rio de Janeiro e para relembrar sua infância dedicou em seu livro um capítulo especial com o subtítulo “Lavras”.

Suas reminiscências da infância na cidade passeiam por todo o livro e não se restringem apenas ao capítulo especial. Há inúmeras citações a fatos ali acontecidos. Contou que, depois de ter alcançado grande sucesso na Jovem Guarda, com Roberto e Erasmo Carlos, foi matar a saudade de seu gostoso passado na cidade, já no ano de 1999. Visitou a rua na qual morou por muito tempo, onde deixou lembranças que marcaram sua alma. Imagino, ainda, que ela se referia especialmente a aquelas pessoas retratadas a seu lado nas postagens de Renato Libeck. Ler sua autobiografia e também rever as fotos de sua visita à Lavras, foi como retornar à infância, andando pelas ruas e lugares citados de nossa cidade natal.

Adorei o livro autobiográfico, escrito na primeira pessoa, revelando ter sido, e certamente é, uma pessoa de bom coração, muito humanista, de bem com a vida, embora tenha enfrentado muitos percalços. Há passagens muito emocionantes como seu show em um leprosário e nele se lembrou dos tempos de criança em Lavras, quando sua mãe dava comida aos leprosos (naquele tempo ainda não se dizia “hanseníase) que ocasionalmente passavam em frente à sua casa. Um deles, terminando de se alimentar, pediu licença à Dona Odete, a caridosa mãe de Wanderléa, para quebrar a louça e os talheres, pois estariam infectados pela sua doença, mostrando-lhe, sob a capa, o braço enfaixado, corroído pela doença. A menina de apenas seis anos, e muito curiosa, olhava de longe mas, a triste cena ficou gravada para sempre em sua memória. Imagino o quanto ela chorou de emoção naquele show que ofereceu, anos mais tarde, aos desafortunados de um grande leprosário em Fortaleza. Ali, cantou até mesmo na impenetrável caverna escura, onde ficavam os doentes em estado terminal. Ler e sentir os detalhes de sua narrativa, sobre a emoção causada naquele show, foi comovente. Impressionante, ainda em relação a aquela triste caverna, foi que uns dez anos depois, ao ensaiar uma nova musica, teve uma profunda sensação de angústia, aperto no coração, a ponto de interromper o ensaio. Sentou-se, esvaziou a alma e chorou convulsivamente tudo que havia vivenciado na tenebrosa caverna dos leprosos e ainda aquela cena presenciada em Lavras,  em tenra idade, quando sua mães caridosamente alimentava aqueles infelizes doentes à porta de sua casa. Ambas as experiências ficaram adormecidas silenciosamente no fundo de sua alma. “O flagelo humano, a vulnerabilidade da carne e toda a impotência me fizeram cair em prantos e compreender melhor o valor da vida e da solidariedade ao próximo”, escreveu ela em seu livro. Belíssima reflexão, do fundo da alma, coração ternura!

Outra passagem marcante de seu caráter foi quando se desfez de seu carrão importado, um Mustang branco de capota preta, o primeiro a chegar ao país. No trânsito em São Paulo, depois de parar numa rua bloqueada por um caminhão que recolhia lixo, foi reconhecida pelos garis que correram até ela e aplaudiram seu sucesso da TV e nas rádios. Chegou em casa e emocionada com a cena e diante da humildade daqueles garis, decidiu que num país pobre como o nosso não deveria ostentar superioridade de status financeiro e social e por isso vendeu o carrão, conforme ela mesma disse. Coração de pura ternura e deve mesmo, com certeza, ser por causa de gestos assim que o rei Roberto Carlos a batizou de “Ternurinha”.

Wanderléa foi a rainha inconteste da juventude dos anos 60, ao lado do rei Roberto Carlos. Seu livro é um autorretrato sincero, doído em muitos casos e comovente em muitas passagens de sua vida. Revela-se como filha amorosa, carinhosa até mesmo com o pai, um tanto durão na (não) aceitação de sua carreira artística, de mulher independente, resolvida, que gostava de cantar, dançar e se vestir com modelitos avançados para a época. Além disso, sofreu duros revezes, a morte prematura, com apenas 17 anos, de sua irmã Wanderlene, a Leninha, depois veio a morte do pai, seguindo-se o acidente com seu noivo, Nanato, filho do apresentador Chacrinha, que fraturou a coluna num mergulho em piscina e ficou tetraplégico. Ela o acompanhou e dele cuidou, diretamente, por longo tempo e este foi um duro golpe sofrido pela cantora, mudando o rumo de sua vida, deixando em segundo plano a carreira artística. Não bastasse isso tudo, seu próprio filho Leonardo, com menos de três anos de idade, também morreu afogado na piscina de sua casa. Foi a perda mais arrasadora, segundo ela própria e para completar, dez anos depois perdeu seu querido irmão e companheiro Bill, que  faleceu ainda na casa dos 40 anos de idade.

Muita fatalidade, muita dor, que ela suportou, inclusive cuidando de todos esses entes queridos em suas fases finais de vida. Mas, ela sempre intercalou momentos felizes nesses períodos de dor. Dizia, em uma de suas versões musicais que vivia triste e por isso cantava (Tempo de criança).  Cantava e inovava os tempos, tempos duros, disse ela em entrevista:
“vivia como todos os jovens no Brasil, com aquela pressão de comportamento. Os vestidos eram abaixo dos joelhos. Existia todo um ‘bênção mãe, bênção pai’. O jovem não tinha uma identidade própria, uma maneira de vestir, uma gíria própria, músicas próprias. Nós trouxemos, de uma forma muito intensa, essa jovialidade para o país. Era uma briga séria dentro de casa para usar saia curta. Os rapazes usavam só azul marinho, camisa branca, e de repente veio aquela garotada toda cabeluda, blusas de babados, e eu com a minha minissaia”.

Foi de fato uma revolucionária, apesar de todos os percalços e sofrimentos pelos quais passou. Revendo, agora, a série de fotos publicadas pelo historiador e colecionador de quase 100 mil fotos antigas da cidade, Renato Libeck, vejo que realmente ela foi e é muito amorosa, saudosa dos tempos que passou em nossa cidade, comprovando-se assim o que escreveu em sua autobiografia. De fato ela é, sim, além de cantora de sucesso, mulher de valor, humilde, de coração generoso, humanista que cuidou dos entes queridos, com prejuízos para sua carreira profissional. Pura ternura!

Em sua última visita à Lavras houve uma passagem interessante, contou-nos o historiador Ângelo Alberto De Moura Delphim que, então, fora ao Hotel Vitória tomar café da manhã com Wanderléa e o marido. Ela estava na cidade para apresentar um show na Praça Augusto Silva, a principal praça da cidade. Chegou um dia antes e, por volta da meia noite, foi à rua Dr Gammon para ver sua antiga casa. Não a encontrou de pronto, pois as casas haviam sofrido reformas em quase toda a vizinhança. Porém, um morador a reconheceu (e quem não a reconheceria?...) e antes de leva-la ao endereço desejado, convidou-a para entrar em sua casa. Convite aceito, mostrou-lhe um lindo bebezinho dormindo no berço e aos prantos contou à Wanderléa que tinha sido abandonado pela esposa. Pediu sua ajuda e ela, a famosa cantora, durante o show, pediu à mãe do bebê que comparecesse ao palco pois ali estava seu marido. Dessa vez a linda e famosa cantora não mandou que o “Senhor Juiz parasse o casamento....”, ao contrario reatou os laços de união daquele casal que voltou para casa feliz e ambos cuidaram do bebê que, hoje, provavelmente estará lendo essa bonita história. Wanderléa, mais uma vez deu provas de seu doce coração.

Mas, esse não foi o primeiro show que ela apresentou em Lavras. Houve outro, no auditório Lane Morton, do Instituto Presbiteriano Gammon, no ano de 1967 ou 68, segundo nos relata Fausto Novaes, um dos integrantes do conjunto musical “Os Fantásticos”, que tocou na abertura do show. “Ficamos impressionados com a simplicidade, a beleza e classe da Ternurinha que, embora estivesse no auge da Jovem Guarda, tratou a todos com muita simplicidade, alegria e ainda preferiu se hospedar na casa de amigos de infância, ao lado do Instituto Gammon, próximo ao local onde residiu quando criança”, completou o guitarrista, Fausto.

De minha parte, como todo jovem daquela época e com a mesma idade da “Ternurinha”, acompanhava tudo pelo rádio, TV e revistas e, lógico, entrava na onda daquela “festa de arromba”. Assisti  a seu show em Uberaba, em 1966, no auge de sua carreira, quando se apresentou ao lado de Renato e Seus Blue Caps e outros artistas. Mais tarde, já no ano de 1997, embarquei em Brasília no Boeing 737/300 da Varig, de prefixo PP-VOZ, com destino a São Paulo para assistir ao show “Jovem Guarda 30 anos - A Festa”, que estava com mais de um ano e meio em cartaz e fazia tremendo sucesso. Hospedei-me num hotel na Rua da Consolação, bem próximo ao antigo Teatro da Record, que foi palco dos shows da Jovem Guarda nos anos 60. Dia seguinte, 17 de julho de 1997, uma quinta feira, recebi os amigos de Lavras  e nos dirigimos para a tradicional casa de espetáculos Tom Brasil, em Santo Amaro (na época também era conhecido por HSBC Brasil), onde se daria o show. Com mais de duas horas de duração, apresentaram-se muitos daqueles que integravam a turma da Jovem Guarda das tardes de domingo na TV Record, como, Eduardo Araújo que entrou no palco dirigindo uma réplica do carro vermelho conversível, cantando “Eu sou o Bom”, e mais, Silvinha,  Jerry Adriani, Incríveis (Netinho, baterista e organizador do evento), Vips (Marcio Antonucci), Ronnie Von, Ed Wilson, Martinha, Leno e Lilian,Trio Esperança, Wanderley Cardoso, Rosemary, Deni e Dino, Golden Boys e tantos outros. Mas, sem demérito para os demais, a atração principal foi mesmo a Wandeca, com sua micro-saia de couro e botas de cano alto e 100 milhões de fios de cabelos loiros, muito compridos, esvoaçantes, formando linda e maravilhosa cabeleira tal qual Barbarela, na qual ela própria disse ter se inspirado no look. Fomos ao delírio com a sua canção “O tempo do Amor”, o maior sucesso e a canção que ela própria mais gostava:
“Já chegou, já chegou/Novamente a bonança/Todo mal já passou/Já voltou a esperança/Vamos dançar e namorar/Sempre alegre ser.
Vivendo assim a sorrir/A vida tem mais sabor/É o tempo do amor (Tempo do amor)
Uh uh uh uh uh, uh uh uh uh uh.
É feliz, bem feliz/Quem amar de verdade/Se viver como nós/Sem rancor, nem maldade
Vamos cantar, sem pensar/Que o mundo é tão ruim.../ É o tempo do amor...”

            Esse foi dos melhores shows daquela turma, segundo as próprias palavras de Wanderléa, ensejando, inclusive, o lançamento de dois CDs. E posso afirmar que realmente foi uma catarse. O público lotava o imenso auditório, todas as noites, escreveu a cantora, acrescentando que “o amor das pessoas estava ali, intacto, me enchendo de alegria e boas vibrações”, trinta anos depois, do mesmo jeito. 

             Tempos bons, não somente a época da infância da cantora como também os anos dourados da década de 1960, quando ela e sua turma da Jovem Guarda embalaram os sonhos daquela juventude sadia, sem vícios e que apenas queria se divertir. E como nos divertimos com aquele som chamado de iê, iê, iê (parodiando os Beatles, yeah, yeah, yeah...). e para entrar na onda deixamos de lado as calças Lee, Topeka e Sheriff e passamos a trajar a nova calça Calhambeque, da griffe do rei Roberto Carlos. Ah..., a camisa social da época era a Volta ao Mundo (que não amarrotava...rsrs) e a brilhantina nos cabelos era farta, lustrosa. As meninas usavam penteados de coque alto, como ninho de passarinho, com muito laquê.  Predominavam as minissaias com até um palmo acima do joelho, enquanto que a ousada Wandeca usava, segundo escreveu em seu livro, a micro-saia de apenas quatro dedos abaixo do púbis. Sim, para as zelosas mães que mantinham  rígido controle sobre as filhas,  era muita ousadia da “Ternurinha”. Realmente, tempos bons daquela juventude. E a nossa querida cantora sempre expressou muito bem essa alegria e nos empolgou muito mesmo, ali em São Paulo, já cinquentão de cabelos grisalhos, mas com o coração de vinte anos apenas.

Hoje, novamente, com seu livro autobiográfico, nos leva a um passado gostoso, marcado pelas doces tardes de domingo da Jovem Guarda na TV Record de São Paulo e as habituais horas dançantes no Clube de Lavras ou mesmo nas frequentes reuniões em casas de amigas. Mães muito ciosas preferiam que as filhas recebessem os amigos em suas próprias casas, sob constante e direta supervisão/vigilância. Mas, ainda assim sempre era possível roubar um beijo das meninas pelos corredores da casa, o que era o máximo permitido à época... um beijo roubado (na verdade, consentido, cúmplice), rápido, corrido, adrenalina a mil por estar transgredindo as rígidas normas e a cerrada vigilância de então. Por isso, ler o livro autobiográfico de Wanderléa é como se tivéssemos sido protagonistas de sua vida e, em certo sentido, podemos afirmar que sim. Ótimas lembranças! Foi uma brasa, mora!

Gostaria de sugerir aos amigos lavrenses, especialmente ao Possato, Libeck, Angelo Delphim, Mattioli e outros a procurarem a Prefeitura de Lavras (Secretaria de Cultura ?) e sugerir um convite, uma recepção cultural, uma homenagem a ela, a cantora Wanderléa (de sobrenome Salim), pois ela ama nossa cidade onde viveu a infância e ainda tem parentes. Talvez uma solenidade na belíssima Casa da Cultura, com cerimônia de lançamento de seu livro, que é recheado de inúmeras referências à comunidade local, à família Salim, irmãos de seu pai e muitas outras pessoas com as quais ela conviveu até o início dos anos 50. Com a palavra a comunidade! Ela merece o título de Cidadã Honorária, não apenas pelo fato de ter aí vivido e agora divulgado com amor e carinho os tempos de sua infância em Lavras, mas, sobretudo por ser quem ela é: mulher de valor, íntegra humilde e de doce coração, “Ternura” que a todos ama.

E se realizarem esse evento, não deixem de divulga-lo, pois, embora distante mil quilômetros e por mais de quarenta anos, aí estarei para mais uma festa de arromba, de homenagem a essa maravilhosa pessoa. Uma festa para, novamente, arrombar nossos corações com a alegria contagiante da cantora “Ternurinha”. E é mesmo, um doce de menina. Abraça-la e agradecer pelas alegrias proporcionadas à nossa juventude, cujo amor ainda permanece em nossos corações, será muito prazeroso. Seus shows têm sido momentos mágicos de volta ao passado. Alegria pura! E a alegria é valiosa e mais, a música é parte importante dos momentos felizes, disse a cantora. A musica é capaz de acalmar a alma, nos enleva e faz-nos flutuar no tempo das doces recordações. Concordo com ela, a cantora de terno coração, a musa de todos os tempos, como bem disse seu querido irmão, Bill, empresário que cuidava de sua imagem, repertório, figurinista sem igual. Para ela “O tempo do amor das jovens tardes de domingo é hoje. É agora. Aquela boa energia nos deixa com sede de futuro”. Sim, concordo..., somos eternas crianças a rememorar o passado e a projetar um futuro feliz.

Brasília, 26 de janeiro de 2018

Paulo das Lavras


A expressão preferida da cantora, a alegria e a volumosa e bela cabeleira
no look de Barbarela, na capa de seu livro autobiográfico
Foto: Capa do livro “Wanderléa...Foi Assim” - 2017


Wanderléa visitando antigos vizinhos, em Lavras (Iris e outros).
Av. Dr Gammon, ano 1999. Alguns estudaram com seu irmão, Wanderley, que a acompanhou durante toda a vida profissional. Também a irmã, Wanderlene ,  estudou no mesmo Grupo Escolar Álvaro Botelho.  Infelizmente foi vítima de bala perdida e faleceu, aos 17 anos, no Rio de Janeiro.
Os amigos relembraram à Wanderléa os tempos felizes da infância, ali, naquela rua, ao lado de vários de seus irmãos mais velhos, o pai Antônio Salim e a mãe Odete. Foi um reencontro mais que feliz para a cantora que, além do carinho e admiração recebidos, pôde reviver aqueles doces anos de sua infância.
Na foto, Vanildo, vizinho e contemporâneo apresenta-lhe sua filhinha.
Foto: Acervo de Renato Libeck



Rua Dr Gammon, anos 60, onde morou Wanderléa e sua numerosa família até o inicio da década de 1950, quando então se transferiram para a cidade do Rio de Janeiro
Foto: Acervo de Renato Libeck


Com a amiga e vizinha de infância, Iris. Emoção da amiga e
a alegria e ternura até no toque pessoal da cantora. Um doce de menina.
Foto: Acervo de Renato Libeck

Toda a rua se mobilizou com a ilustre visita. Até o “papagaio”
 veio fazer festa para Wanderléa. Ela escreveu em seu livro que vendia frutas e verduras numa cestinha e cada vizinha dizia: “Leinha, compro uma verdura , mas só se você  cantar um pouquinho pra mim”. E ela cantava.
Foto: Acervo de Renato Libeck

No portão da casa de uma “vizinha” da rua Dr Gammon, em Lavras.
Foto: Acervo de Renato Libeck

Em entrevista a uma rede de TV, em Lavras, ano de 1999
Foto: Acervo de Renato Libeck





Wanderléa durante os ensaios do musical "60! - Década de Arromba".
Foto: André Rodrigues

domingo, 31 de dezembro de 2017

Ano Novo – Esperanças renovadas, por quê?


            É incrível como o homem do campo sabe contar o tempo sem consultar o relógio. Meu pai, com sua vida no campo, nunca usou relógio até os 80 anos. Depois disso passou a usá-lo no pulso e ficava como uma criança a admirar o brinquedo a todo instante. Viveu até os 101 anos e nunca mais se separou dele, até o último momento. No campo estava sempre a olhar para os céus como a implorar a chuva para o plantio de cereais e o sol para a colheita. Sabia a hora pela posição do sol, qualquer fosse a estação do ano, com a precisão de cinco a dez minutos. Por isso, enquanto na lida, nunca precisou usar o relógio. Nos trópicos, onde vivemos, sabe-se que há dias mais curtos, quando escurece mais cedo e dias mais longos quando o sol se põe mais tarde. Há dias mais frios e dias mais quentes. Dias chuvosos e dias mais secos. Lua cheia, bem grande e brilhante e depois aparecem pequenas como se fossem metades. Mas, antes disso, o homem observou que havia dias e noites e que o sol “passava” pelos mesmos lugares todos os dias e que a lua “passava” pelos mesmos lugares todas as noites. Acreditavam que o sol girava em torno da terra. Isto até o ano de 1543, quando foi publicada a tese de Copérnico (falecido no mesmo dia da publicação), que mostrava que a terra girava em torno do sol (sistema heliocêntrico). Poucos acreditaram. Galileu, quase um século depois (1616) defendeu a tese de Copérnico e foi condenado pela Inquisição da Igreja Católica. Foi obrigado a negar publicamente a tese de que a terra gira em torno do sol, que seria “herética” e “teologicamente” errada. Foi condenado e teve seus livros incluídos no Index, censurados e proibidos.
           
Bem, mas e o tempo medido?  Ora, havia dia e noite, frio e calor chuva e estiagem e esses fenômenos se repetiam em intervalos regulares de tantas luas, conforme observado pelos agricultores, que se baseavam nesses ciclos lunares para plantar e colher. Assim, ficou fácil criar um calendário que se repete a certo intervalo de tempo, as chamadas estações. E qual intervalo? As fases da lua, lógico! E a repetição  de uma estação se dá a cada 12 lunações. A esse ciclo completo, que corresponde a uma volta da terra em torno do sol, convencionou-se chamar de Ano, dividido em 12 meses. Esse é o chamado movimento de translação da terra e durante esse período, o ano, a lua também dá 12 voltas em torno da terra. Cada volta da lua em torno da terra dura aproximadamente 30 dias, tempo que se passou a chamar de mês. Então, o ano tem 12 meses, o mês tem 30 dias, e cada dia tem 24 horas – tempo em que a Terra dá uma volta em torno dela mesma (rotação). Assim, ficou definido o tempo para a humanidade. Lógico que se os fenômenos naturais se renovam, como o dia, noite e as estações, completando o ciclo anual, o homem passou a usar esse calendário para quantificar todas as suas ações, a começar pela contagem da idade... os anos de vida. Marcar o tempo é uma grande necessidade humana, não só para questões práticas como psicológicas. Foi sábio quem inventou a divisão do tempo. Tempo de iniciar, plantar, colher e celebrar os feitos. E o padrão adotado foi, então, o Ano/Mês/Dia, pelas razões já explicadas.

Mas, o que significa o Ano Novo? Por que paramos para pensar, refletir e planejar o próximo Ano? Creio ser uma necessidade atávica, de nossos ancestrais que viviam exclusivamente da agricultura. Já imaginou se o agricultor deixa de plantar na época certa? Não vai colher fruto ou cereal algum, pois cada planta tem seu ciclo vegetativo em função das chuvas e horas de sol (de 10 a 12 horas por dia , no verão para florescer e frutificar). Então, fazer um balanço do ano agrícola que passou era mais que necessário. Tão necessário quanto o “planejar” o dia do novo plantio dos grãos. Na Europa e nos EUA há um deadline (data fatal), no mês de maio, para o plantio dos cereais. Se for plantado depois da data fatal é certo que o “general” inverno vai matar a planta antes que seu fruto amadureça, lá pelo mês de novembro próximo. Então, desde que esse mundo é mundo, o homem sempre associou o final de ano como a época para se fazer um balanço das atividades e também planejar ações para  ano novo, até mesmo por questão de sobrevivência. Assim deve ser na nossa vida pessoal. Ao final de cada dia, mês ou mais popularmente no final do ano,  sempre comemoramos aquilo que realizamos. Mas, e as festanças?  Toneladas de fogos de artifício, bebidas... Bem, falemos delas.

Por que mesmo celebramos o Ano Novo com tanto entusiasmo? E o Reveillon? Esta palavra significa,  em francês, “despertar”, estar atento! Mas como estar atento com tanta embriaguez que simula “felicidade”? Tem que estar acordado para a passagem do ano, para “fazer” seus pedidos, diz a tradição, por isso... Reveillon! Ora, ora, a que hora deverei estar acordado, como reza a mais que antiga tradição? À meia noite? Onde? No Japão ou no Brasil? São 12 horas de diferença...., portanto que diferença faz se eu estiver acordado ao meio dia daqui e acompanhar a passagem do ano, do Japão, via satélite, ao vivo? Costumes, convenções antigas, não levam em conta o progresso tecnológico. A tal da meia noite, de virada do ano “acontecia” no mesmo instante para os povos antigos, ou pelo menos até o ano de 1534, quando Nicolau Copérnico disse para  o mundo que a terra girava em torno do Sol e não o contrário. Galileu Galilei, que defendia essa tese foi condenado como herético religioso e obrigado a negar a tese heliocêntrica. Para a igreja conservadora, o sol é que girava em torno da terra, nascia de manhã e se punha à noite. Por isso, a virada do ano, que ela mesma, a igreja, criou o calendário de 365 dias e um ano bissexto de 366 a cada quatro anos, aconteceria à meia noite e “no mesmo instante” no mundo inteiro, pois a terra era fixa e quem girava era o sol..... Mas, nem foi preciso esperar a chegada do avião a jato para derrubar tamanha ignorância eclesiástica  inquisitória que queimava os cientistas com sendo hereges, pois outros como Kepler, Tycho Brahe e Galileu aperfeiçoaram a tese heliocêntrica. Sem ser cientista astronômico, eu mesmo comprovei, na prática, a burrice da igreja que queimava em fogueiras os hereges que “ousavam” confrontar seus dogmas.

Foi assim que certa vez, quando trabalhava nos Estados Unidos, voei de Chicago à São Francisco, na Califórnia. Foram quatro horas de voo, numa distância de quase 4.000 km. Saí às 12:00h e cheguei ao destino às 12:00h. Sim, na mesma hora e foi então que me lembrei da teoria da igreja católica, dizendo que a passagem do ano se daria !no mesmo instante, no mundo inteiro...” Só que não, pois, havia voado quatro horas e percorrido longuíssima distância. Se a igreja tivesse tido acesso ao avião a jato naqueles idos do século XVI, quem sabe a história teria sido outra.... Fuso horário tem disso, pois o avião a jato voa na mesma velocidade das horas do fuso. Pode-se dizer que fuso horário é convenção dos homens. É! Porém, passagem de ano velho para ano novo, também é! E por que, então, acreditarmos na transcendentalidade dessas datas? Por que seguir as regras convencionadas? A tradição recomenda celebrá-la com roupas de cor branca, atirar flores ao mar para Iemanjá, queima de toneladas de fogos de artifício para espantar os maus espíritos (pelo barulho) e atrair o bem e “iluminar” os céus, passando a ideia de “comunicação” com os deuses, a ligação com o transcendental. E a comida farta, incluindo algumas iguarias que “atraem” boa sorte e representam fartura para o ano todo. Porém, diz a lenda, não se deve comer, na virada do ano, aves que ciscam para trás, pois isso ocasionaria atraso na vida, assim como a lentilha verde, dá sorte com  moedas, dinheiro. Champanhe, danças, grandes shows pirotécnicos, etc, etc? À parte a beleza da queima e efeito de toneladas de fogos de artifício, nada disso me atrai nessas datas, pois são bem grotescas as origens e razões desses costumes. Enfim, cada povo tem a sua história, seu folclore e inventa maneiras de desejar feliz passagem de ano para seus amigos. Folclore e lendas à parte, é só lançar mão de argumentos científicos nos campos da engenharia, tecnologia, psicologia e afins, para se comprovar o quão primitivas são essas tradições. E pior, hoje deturpadas para atender aos interesses comerciais.

Fico a imaginar, por experiência própria, se eu tivesse embarcado e voado, de Chicago para São Francisco, à meia noite de 31 de dezembro. Teria eu que comemorar durante as quatro horas de voo naquela meia noite interminável, de longuíssima duração da tal festa de reveillon? Ou então, qual “meia-noite” valeria, a do embarque ou a do desembarque, ou todas valeriam durante as quatro horas de duração da viagem paralela ao tempo? A infabilidade da igreja falhou! Pelo menos nessa questão. Pena que os mortos pela sua Inquisição perderam a vida por conta de crassos erros, pura ignorância. Mas, a despeito disso, a Terra continua girando em torno do Sol e embora Galileu tenha se livrado da forca ou da fogueira da Inquisição, ele foi perdoado formalmente pela Igreja Católica em 31 de outubro de 1992, 350 anos depois de sua morte. A igreja gastou esse tempo todo, três séculos e meio, para aprender que a Terra gira em torno do Sol? Ainda bem que não matou Galileu nem Copérnico e concedeu, ao primeiro, o perdão post mortem.


Bem, as discussões acima são apenas retóricas argumentativas. Mas, ainda assim e por isso mesmo, essas festas com seus rituais próprios, antigos e hoje deturpados, não me empolgam, apesar de os especialistas em psicologia humana acharem que esses rituais são importantes e têm uma função especial para as pessoas. Carregam o poder simbólico de abrir e fechar ciclos da vida e esse poder é enorme, representando verdadeiro sincretismo, explorado até mesmo pelas religiões. O interessante é que, segundo os mesmos especialistas, as pessoas sentem necessidade de fazer um balanço de pontos positivos e negativos a cada ciclo que termina. Outro ingrediente fundamental para o bem estar psíquico do ser humano é a necessidade de esperança e dá às pessoas uma sensação de controle sobre o próprio destino, concluem os especialistas.  Daí, então, o sucesso dessas festas apelativas até no nome: réveillon. E a festa é vendida como se fosse a “ALEGRIA” em si.

Pura fantasia, dizer que todos que ali estão se sentem maravilhosamente felizes, vestidos de branco (outra fantasia do imaginário humano, pura convenção inventada pelo homem: a cor branca simbolizaria a paz, calma e pureza, significa inocência e esperança no bem e surgiu com os adeptos do Candomblé, que se vestem de branco para jogar flores no mar para Iemanjá). Mas por que todo mundo precisa fazer o balanço de suas vidas ao mesmo tempo, numa data convencionada pelo próprio homem? Diz a psicóloga Jaqueline Meireles que esse gigantesco “mutirão de boas intenções”, que se cria nesses momentos, pode ser um belo empurrãozinho para incentivar o exame de consciência e abraçar o ano vindouro. Então, segundo a especialista, somos “empurrados pela massa”, E eu acrescento: pela propaganda comercial, puramente financeira para os bolsos de quem organiza as festas e comerciantes que querem vender seus produtos natalinos e de festas de fim de ano. Enfim, todos querem apenas o lucro comercial, financeiro, até mesmo com irresponsabilidade que mata dezenas de pessoas a cada ano, como aquele malfadado Bateau Mouche que naufragou diante do show pirotécnico de Copacabana..

Recentemente li uma entrevista de um padre muito famoso na TV, que se queixava dessa “escravidão dos costumes”. Ele alega que não há aquela tal e tão propalada alegria geral. Afirma que “É quase uma inquisição. Você tem que ser alegre nessa data e isso é cansativo. Porque às vezes a pessoa não está naquela alegria toda, mas tem que fazer o papel. Igual na noite de Natal. Eu tenho pena de quem prepara a ceia, faz na correria toda e na hora de comer a pessoa que preparou não aguenta ficar em pé”. Quem disse isto foi o Padre Fábio de Melo, palestrante mega-pop da TV, e continuou seu desabafo:
“... não gosto disso, dessa obrigação de comemoração e por isso, e precisei aos poucos,  ao longo da vida, tomar coragem para fugir dos lugares lotados e encontrar a própria turma para ter uma passagem menos cansativa. O pior lugar do mundo é o litoral no interior. Fila para a padaria, fila para o restaurante, e vê aquele mar de gente, fingindo estar feliz. Um dia comecei a tomar coragem de estar onde achei que era mais interessante. Gosto de não ter a responsabilidade da alegria do fim de ano e nem ficar respondendo aquelas mensagens encaminhadas, que você sabe que não foram escritas para você. Tudo é cansativo”, concluiu o entrevistado.

Encontrei, portanto, um aliado de peso, incontestável, no combate a esses costumes deturpados, pois ele tem a sabedoria da convivência  com milhões de pessoas e sabe se relacionar. Pensando melhor, que coisa desagradável ver as festas e tradições humanas transformadas, hoje, em puro e mero objetivo comercial. Veja o Natal, o que há de religioso? Quase nada, inexpressivo. O que conta é o papai Noel cheio de presentes (interesse comercial). As manchetes dos jornais, à serviço do setor financeiro, só falam de “aumento nas vendas de natal, lojas e shoppings superlotados...”. E onde fica o espirito natalino cristão? Na festa de fim de ano a mesma coisa..., as manchetes estampadas, hoje, 31/12/2017, pelo jornal Correio Braziliense: #Partiufesta na Esplanada; Hora de renovar, com conselhos de astrólogos (ah... faça-me o favor, me poupe-me dessas crendices e superstições); jogue na Mega-Sena e ganhe 280 milhões; Restaurantes capricham nas festas desta noite; Descrença Política (grande novidade); Hora de olhar para frente; Fé no futebol e eleições de 2018...; 2018 será Ano difícil... As manchetes não serão diferentes nos noticiários televisivos da tarde e noite de hoje, a tal virada do ano. Pior, ainda, serão as notícias de amanhã, primeiro dia do novo ano, com o balanço negativo do ano velho, sob a falaciosa manchete “Retrospectiva”. Padre Fábio de Melo, da entrevista acima, tem razão. É irritante e cansativo demais! Também prefiro ficar longe dessa folia, de falsa “felicidade”. Ninguém tem obrigação de praticar isso, apenas porque muitos fazem e sem saber que estão sendo manipulados pelo poder econômico que tudo controla, até mesmo se haverá metrô, loja aberta ou não. Isto sem contar as origens atrasadas, de completa ignorância da ciência, que essas tradições carregam.

E hoje à tarde ainda me deparei com uma postagem muito sensata, de uma amiga dos tempos colegiais, Maria Aparecida Possato. Disse que leu muitas e diferentes mensagens, mas que a essência é a mesma, falando-se muito em Mudanças. Atitude que ela pensa não ser fácil de tomar e executar. Prefere a Gratidão e a descreve, citando a quem deveria ser grata, aos familiares e amigos que lhe ajudaram a ser quem ela é hoje, a quem lhe oferece trabalho, distração, boa prosa, felicidade e espaço para entrar em suas vidas, seja em silêncio ou tagarelando. Continua com sua gratidão, principalmente, a Deus pela vida, lar, comida e luz que ilumina seus caminhos, muitas vezes sinuosos. Promete a si mesma que vai “tentar” (gostei do “tentar”, pois se falhar..., bem foi apenas uma tentativa) ser mais leve e desprendida e que talvez seja essa a estrada para se viver com sabedoria e saborear os momentos felizes que deixamos de viver todos os dias. Assim se expressou em sua bela mensagem de Ano Novo. E digo que essas palavras complementam as de Padre Fábio de Melo e vêm, portanto, ao encontro do meu pensar.

Mas, descrever quatro paginas sobre as falhas e defeitos atávicos dos costumes das celebrações das festas de ano novo, não quer dizer, em absoluto,  que condenamos quem as comemoram em grandes eventos públicos e sigam os rituais recomendados para o vestir, comer e beber. Há, sim, os que gostam de festas, apreciam um bom vinho ou champanhe e participam com gosto e prazer dessas celebrações com fogos de artifício e muita música e bebida. Mas, também, ninguém pode dizer que uma reunião, en petit comité, em família, com um bom jantar (e até champanhe, e faz bem...), precedido de uma oração de gratidão a Deus por tudo que somos e, esperando as 12 badaladas do antigo relógio de parede, marcando um novo dia, um novo ano, não possa também ser considerada uma grande comemoração do Ano Novo.

Feliz 2018 !!!  

 Saúde e coragem para enfrentar os desafios que nos esperam!

Brasília, 31 de dezembro de 2017


Paulo das Lavras

Hoje, à tarde, vestido de preto, dos pés à cabeça (ops..., esqueci-me da tinta preta nos cabelos...rsrs).
Nada de vestes brancas, pura superstição. Detesto convenções e falsas alegrias...kkkk. Aqui, na foto, a alegria foi real, verdadeira, pois degustava, numa adega comercial, uma legítima Veuve Clicquot....
Mas, acabei levando a Chandon...rsrs, tão boa quanto e pronto para a passagem de ano, recebendo em casa toda a família e agregados. Mesmo trajando o preto (disfarça mais o barrigão...rsrs),
ninguém poderá contestar a alegria, a gratidão por tudo.
Ah..., não vou precisar de fogos de artifício para espantar maus espíritos ou iluminar os céus para falar com deuses da mitologia.
A oração sincera, de olhos fechados, no silêncio da alma, nos aproxima mais de Deus.
Missão cumprida em 2017. Gratidão à Deus, à família e aos amigos!
Saúde, para todos nós, e coragem para enfrentarmos os desafios de um novo ano.



 
Sim, o show pirotécnico de Copacabana é lindo. E a massa de milhões de cariocas e turistas do mundo inteiro faz a alegria do comércio. Os psicólogos têm razão, é contagiante a festa de Reveillon.
Um jornal publicou:
“...para a chegada de 2017 em Copacabana... na noite de réveillon, a praia mais famosa do Brasil recebeu, de acordo com a Riotur, dois milhões de pessoas, que foram brindar a chegada de um novo ciclo.18 toneladas de fogos foram disparados de onze balsas iluminando o céu de Copacabana para delírio dos presentes. O público ouviu o disparo de 21 mil bombas que começaram ao som de “Samba do Avião”, de Antônio Carlos Jobim. A esperança por dias mais leves e uma situação financeira mais tranquila também influenciou na maneira das pessoas se vestirem para o réveillon. Assim como no ano passado, muita gente trocou o tradicional branco pelo amarelo, que representa a prosperidade.

— Vim de amarelo para ter mais sorte em 2017. Preciso atrair coisas boas, principalmente uma proposta de emprego — diz Larissa da Cruz, que ficou desempregada em 2016.
Portanto.... Feliz 2018. Saúde para todos!”
Foto: - reprodução, internet - 2017


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

50 anos, hoje. Festa de formatura


Era o dia 18 de dezembro de 1967, uma segunda feira, exatamente como hoje e também sem chuva, uma exceção para aquela época do ano, chuvosa na região montanhosa do sul de Minas. Naquele dia o Salão Nobre, Lane-Morton, do Instituto Presbiteriano Gammon, estava engalanado para sua festa maior: A colação de grau da turma de Engenheiros Agrônomos da velha ESAL, hoje Universidade Federal de Lavras – UFLA. Era o único curso superior da cidade, por isso a importância do evento que culminava com “o Baile”, no Clube de Lavras.

            Para o Menino das Lavras foi mais que uma vitória. Cinco anos antes assitira à formtura de alguns amigos e foi ao famoso baile da Esal. Ali, no bar do Filipe, situado no subsolo do mesmo prédio do clube, na declivosa Rua Raul Soares, presenciou a festa particular de alguns formandos que brindavam seus uísques, vinhos e cervejas, um pouco antes do inicio do baile oficial. Dentre eles os amigos e futuros colegas  de magistério, Arnoldo Junqueira Neto, David de Souza Andrade, Jair Vieira, vizinho da rua Otacílio Negrão, esquina com Progresso e mais Luiz Henrique de Aquino, Marcelo Adhemar de Andrade Carvalho, Sarasvate Hostalácio, além de outro amigo da familia, Washington Cornélio, irmão da coleguinha de grupo escolar, Alba Divino Cornélio. O menino tinha muitas razões para aceitar o convite e comparecer ao baile de formatura, mas, sequer imaginava que, menos de dez anos depois, se tornaria colega daqueles seis formandos, como professores na própria instituição que o graduaria mais tarde. Mas, ali, naquele bar anexo ao clube, assistiu a vários brindes, sempre brindando a alegria e o futuro promissor da carreira de Engenheiro Agrônomo. Tão promissora e lastreada na fama de uma Escola que formava profissionais, havia mais de 50 anos, dentro da filosofia do Land Grant College. Estes, antes mesmo da formatura já estavam todos, empregados nos órgão de fomento e extensão rural mantidos pelos governos federal e estaduais. Era o sonho da garotada lavrense, passar no vestibular e formar-se na Esal.

Ali, no bar do Filipe, circulando por entre as mesas repletas de formandos em traje de gala, o menino sonhava também ser um daqueles em futuro próximo. Para tanto, vinha cumprindo a promessa que fizera a si mesmo: estudar com afinco para passar no vestibular. E assim fez, pois  para chegar lá, o menino teve que ralarr muito, abdicando até mesmo do lazer. Todas as horas eram preciosas. Associou-se ao colega Fernando Santa Cecília e durante todo o ano de 1963, estudaram juntos, seis horas ao dia, após as aulas normais do 3º ano do curso científico do Colégio Aparecida. E o local de estudos, na casa do colega, ficava quase defronte ao Clube de Lavras, logo ali, do outro lado da rua, no sobrado do Banco de Crédito Real, onde seu pai, Sr. Clélio Santa Cecília era o gerente. Bons tempos aqueles quando éramos tratados como se filho fôssemos, recebendo toda a atenção de Dona Elisa, Sr Clélio e de toda família.

O program de estudos contemplava, diariamente, a matemática, química, física e bilogia, com as matérias acumuladas dos três anos do curso colegial. Tínhamos bons livros. Particularmente o menino gostava de matemática e até conseguiu um novo livro, de autoria do Prof. Bezerra, da Universidade do Paraná. Nesse exemplar havia uma questão de geometria que nenhum outro livro trazia e a sorte ajudou o menino. Na prova oral do vestibular (sim, havia prova oral no vestibular, no quadro negro, ao vivo, resolvendo questões/problemas bem de frente ao professor), tirou o ponto sorteado nº 17, cujo problema era exatamente aquele estudados e aprendido no volumoso livro de capa laranja do Prof Bezerra. Resultado nota 10 em matemática. Mas, o resultado geral do vestibular da Esal recém federalizada não poderia ter sido melhor para o menino que se dedicara com afinco:logrou êxito em primeiro lugar no primeiro vestibular da Esal federalizada apenas 15 dias antes (Lei 4.307, de 23/12/1963). Passar no vestibular já seria uma vitória. Passar em primeiro lugar e ainda como brinde ser dispensado de pagar as pesadas mensalidades, foi a glória das glórias. Também o colega Fernando foi aprovado nos primeiros lugares. Assim, a formatura já tinha data marcada: dezembro de 1967. E assim se cumpriu!

E hoje, 18 de dezembro de 2017, 50 anos depois, parei para refletir, relembrar aquele belo dia em que comecei a vida profissional. Colhi, portanto, a recompensa do esforço dispendido durante os anos e anos de estudos e dedicação planejada para o aprendizado.

O sucesso não vem por acaso, seja na vida estudantil ou profissional. É produto de trabalho e dedicação. Mas, tem também os componentes família e professores. E ponha professor nisso, a começar pelo nosso paraninfo. Mas essa é outra história a ser contada em livro. Celebrar as bodas de ouro, de formatura foi outro evento marcante. Conseguimos reunir  grande maioria dos colegas. De trinta formandos,  cinco já nos deixaram. Vinte um compareceram para três de festas e comemorações na Universidade Federal de Lavras. Valeu!. Faria tudo novamente, do mesmo jeito, os sonhos, os estudos intermináveis, os colegas, a vida profissional, a família. Assim é a vida, cheia de momentos que ficam gravados para sempre.

Brasília, 18 de dezembro de 2017


Paulo das Lavras



 
Os 30 colegas que se formaram em 18/12/1967, pela antiga Escola Superior de Agricultura e Lavras, que foi federalizada em 1963 e transformada em Universidade Federal de Lavras em 1994.


 
O pórtico de entrada da hoje centenária Escola Superior de Agricultura de Lavras- ESAL.
Durate quatro anos o Menino passou de duas a quatro vezes ao dia sob o mesmo, sempre
com alegria, renovada a cada vez, na busca do saber para um dia tornar-se profissional 


O Jornal acadêmico, O Agrário, saudou os novos calouos, do primeiro vestibular
da recém feralizada ESAL


Para constar naquela lista de aprovados, conforme noticiado pelo jornal,
 tivemos que estudar muito, naquele quarto da janela à direita, na casa do colega
Fernado Santa Cecília. No térreo funcionava o Banco de Credito Real, onde
seu pai, Sr. Clélio, era o gerente. 






O famoso Jeep azul da Esal, dirigido por Guaracy Vieira.
Gilda Salvatori e Julio Cesar Romeiro à direita, o redator de O Agrário,
que nos deu as boas vindas na reportagem acima.



 
Foto de 1958, no antigo auditório do predio Odilon Braga. Muitos foram nossos professores a partir de 1964: Paulo de Souza, José Otávio casca, Alcebíades Cartaxo, e Weber Almeida sentado à direita. Em pé, o terceiro da esquerda para a direita é Eduardo King Carr, seguindo-se Jaziel Rezende, Tancredo Weguelin Paranaguá, Marcelo Penido, (Clidenor Galvão??) e Edmir Sá Santos.


 
O prédio Alvaro Botelho, em foto de 2012, quando da restauração da praça.
Sentado, o prof. Alfredão. Paulo Roberto, ao centro, de calça branca,
conversando  com  duas senhoras.


A sede do Centro Acadêmico de Agronomia, no campus Histórico da Esal/Ufla


A turma em excursão à Brasília - maio de 1966. E o Menino, 4º, em pé,
da esquerda para direita, sequer sonhava que um dia se mudaria para Brasília.
Muitos até procuravam o Ministério da Agricultura, o que era natural, pois se
formariam  em Agronomia.  Mas, trabalhar no Ministério da Educação, nem pensar.... ,
 muito menos como dirigente do Ensino Agrícola Superior. Pois, exatos nove
 anos  depois lá estava, no MEC. 


E aí está o nosso querido paraninfo, Prof. Paulo de Souza, ao lado do
prof. Fernando/UFV, em minha casa, no ano de 1979




 
Paulo de Souza, com João Marcio, Nilda, Miriam e
Paulo Roberto, em minha casa, Brasília, dez/1979

Alguns dos colegas: José Maria de Oliveira, Paulo Roberto; Antônio Ernesto Coelho.
João Júlio dos Santos/Perdões; Roberto Thadeu Mendes/Ibiá e
Gilvan de Souza/Lavras


Valsa dos formandos, com a irmã Dilma de Abreu.
 Atrás, à esquerda, Milton Moreira 


O pé de valsa com a filha, num outro baile, muito tempo depois.



 
50 anos depois da formatura recebendo o diploma do Jubileu de Ouro


 
Com a única colega da turma de 30 estudantes. A mesma alegria de 50 anos atrás


Sessão solene da entrega do diploma de Jubileu de Ouro


Festa de confraternização


Com o anfitrião, colega Gilnei e esposa, Solange



O colega Fernando e esposa, Brenda, companheiro de estudos diários, de segunda a sábado,
sete horas de estudos. além das cinco horas do curso colegial. Vestibular à vista....





Jantar e baile do Jubileu de Ouro


Gilson não pôde comparecer, por razões de saúde, mas, em casa,
 vestiu a camisa do jubileu até nos netinhos. O amor, construído
nos longos anos de faculdade, permanece para sempre.