sábado, 14 de outubro de 2017

Lutero em Guaratinguetá - 500 Anos

 


Ich bin hindurch, ich bin hindurch! ... Passei, passei, gritou Lutero ao sair da audiência em Worms, quando inquirido pelo Imperador Carlos V, da Alemanha e príncipes da Igreja, sobre as suas 95 teses contrárias a dogmas da igreja Católica Romana. Essa frase em alemão era repetida pelo saudoso Padre Luiz Tings, alemão de origem, professor de História e Inglês no Colégio Aparecida onde estudei, em Lavras-MG. Lembrei-me de suas aulas sobre a Dieta de Worms, quando recebi do presidente do Instituto Histórico de Geográfico de Guaratinguetá – IHGG, prof. Leandro Pereira dos Santos, a foto do selo, lançado por aquele Instituto, em comemoração aos 500 anos da Reforma Protestante, proclamada por Martinho Lutero em 1517.

Boas lembranças, primeiramente das aulas de história sobre a Reforma Protestante, ministradas pelo culto e poliglota professor, Pe. Luiz Tings que nos ensinou por sete anos seguidos e do qual até fui coroinha em missas celebradas nas capelas do Colégio de Lourdes, Batalhão da PM, fazendas do Faria,  Criminoso e Fábrica Velha, às mrgens do Rio Grande. Também as lembranças dos fatos históricos da cidade de Guaratinguetá, com a sede do IHGG ostentando o nome de Manoel da Costa Valle, o que muito nos honra. Manoel da Costa Valle vem a ser meu pentavô, imigrante portugues que ali se casou com Maria do Rosário Pedroso de Moraes e em seguida se transferiu para Lavras-MG à procura de ouro nos aluviões do ribeirão vermelho. 

     Guaratinguetá era o caminho e parada obrigatória para todos os bandeirantes paulistas que adentravam os campos e serras das Minas Gerais pela antiga Estrada Real. Chegavam até Carrancas e dali em vez de seguir rumo a São João Del Rei e Vila Rica, tomavam a esquerda pelo rio Capivari, Posto da Coruja (Itumirim) e alcançavam pelo recém aberto caminho em direção a Provincia de Goyás, chegando ao estreito do Funil do Rio Grande, já nos Campos de Santana das Lavras do Funil. Havia por ali um posto de Registro Real – espécie de alfândega, para taxar o ouro dos garimpeiros em direção à Estrada Real que os levaria à capital da Colônia, o Rio de Janeiro. Na minha juventude visitei algumas vezes a Fazenda do Registro que ainda hoje tem esse nome e se situa a dez minutos da cidade de Lavras, em direção à barragem do Funil.

Manoel da Costa Valle, o patrono do IHGG que lançou o selo comemorativo em questão, chegou à Carrancas com sua esposa guaratinguetaense e de lá partiu para Lavras, onde se instalou em definitivo em busca do ouro de aluvião do ribeirão vermelho. Esgotada a fonte de ouro, estabeleceram-se numa grande fazenda à margem direita do Rio Grande. Seus filhos foram registrados em Ribeirão Vermelho, Carrancas e Lavras, originando-se as famílias Pádua, Salles  e Costa.  Assim, um selo comemorativo, ainda que de motivo diverso, mas lançado nas terras de nossos ancestrais, evocou-nos doces lembranças da terra natal e suas origens vinculadas ao vale do Paraíba, mais precisamente à cidade de Guaratinguetá, ponto de parada dos bandeirantes e garimpeiros paulistas e portugueses que demandavam os sertões das Geraes e dos Goyazes.


 
Fazenda do Registro, com um caminhão Dodge 1931 e  Ford 1931 pilotados por Renato Libeck e amigos: Lavras-MG, caminho e alfândega do ouro que passava pelo estreito do Funil do Rio Grande, no arraial de Santana dos Campos das Lavras do Funil em direção à capital da colônia, Rio de Janeiro, no século XVIII – 1714-1799.  
Foto: Renato Libeck


Pois bem, mas o que foi mesmo a Reforma Protestante? Nosso professor Pe. Luiz Tings, que gostava de falar em alemão não só aquela exclamação de Martinho Lutero, mencionada no início, mas também brincava com os maus alunos dizendo-lhes: du bist ein esel (você é um burro), não nos ensinou muito sobre as 95 teses de Lutero, publicadas na porta do Castelo de Wittenberg, em 31 de outubro de 1517. Repassava-nos ligeira e genericamente algumas e focava mais na Dieta de Worms, o ato inquisitório que condenou Lutero como herege para sempre e proibia os registros de suas teses que contestavam dogmas da igreja, como as excessivas concessões de indulgências – a compra da salvação da alma, com lugar garantido no céu, privilégio reservado a quem tivesse dinheiro e as pudessem pagar à igreja. 


Padre Luiz Tings, natural da Alemanha, professor de História e Inglês. Ensinava aos meninos de 12 a 15 anos, do Colégio Aparecida, em Lavras, sobre a Reforma Protestante, mas só dizia que o protesto de Martinho Lutero se referia à venda de indulgências, ou seja, só os ricos podiam comprar um lugar no céu. E penso que isto nunca acabou (indulgências), pois consultei os inventários de meus parentes e seus contemporâneos falecidos em Balasar, Portugal, entre os anos de 1703 (nascimento de meu penta-avô Manoel da Costa Vale) e 1850 e constatei que os falecidos deixavam pago nas igrejas a celebração de 20, 50 ou centenas de missas em sufrágio de suas próprias almas. Acreditavam que os santos e as missas rezadas pelos padres iriam salvá-los do “fogo do inferno”. Era simplesmente a igreja se apropriando de bens dos cidadãos, conforme protestou Lutero!
Foto: Renato Libeck


                A Dieta de Worms, terra do vinho Liebfraumilch e não muito distante de Heidelberg aonde visitei a mais antiga universidade da Alemanha, fundada em 1386, aconteceu em 1521 e tinha por objetivo determinar que Lutero renunciasse às suas teses que seriam banidas e também pedisse perdão à Igreja. Não renunciou e ainda reafirmou suas convicções pedindo ampla reforma das práticas da Igreja Católica Romana. Resumiu suas teses em três distintos temas. O primeiro se referia à fé e os costumes, o segundo era contra o papado e sua tirania, com leis que oprimem as consciências, apropriam-se dos bens e das propriedades dos cidadãos.  Em terceiro lugar, escreveu contra os indivíduos que apoiavam a tirania papal e impediam a pregação da Palavra das Sagradas Escrituras. Lutero reafirmou ao Rei e aos Príncipes que não retiraria nada de suas 95 teses, pois se assim o fizesse estaria beneficiando a tirania papal e negando a doutrina de Cristo. Diante disso, o Rei Carlos V deu o veredicto: considerá-lo-ei herege notório e espero que Vós como bons cristãos também façais o que vos compete.       

         Os teólogos afirmam que “tanto o discurso de Lutero quanto o de Carlos V são marcos históricos para as religiões Protestante e Católica. Na primeira expressa-se a consciência presa ao evangelho, na segunda expressa-se a responsabilidade frente à tradição e ao compromisso de proteger a Igreja Romana. No discurso de Lutero expressa-se o curso da Igreja da Reforma, no discurso de Carlos V estão os motivos que nortearão suas ações nos conflitos que se seguirão: a eliminação da heresia”. A partir dessas palavras de Carlos V começou, então, um período negro na história do catolicismo, pois no bojo da chamada Contrarreforma da Igreja Católica, veio a Inquisição e o controle eclesiástico sobre a vida intelectual e religiosa e até mesmo o controle, a censura sobre todos os livros a serem publicados.  Somente com autorização bispo podiam-se publicar livros. Foi um verdadeiro esforço de guerra da Igreja Romana para se reorganizar e confrontar o protestantismo plantado por Lutero. Houve muitas lutas entre católicos e protestantes, culminando com o tratado de Paz de Westfália, em 1648, depois de longa guerra (Guerra dos Trinta Anos) e assim demarcando os territórios e fronteiras políticas e religiosas de católicos e protestantes. A partir de então a Igreja Católica adotou uma agressiva campanha de reavivamento da fé e da disciplina religiosa. Foi então que surgiram medidas supostamente corretivas, dentre elas a Inquisição ou Santo Ofício (os ferozes tribunais da Igreja Católica que perseguiam, julgavam e puniam pessoas acusadas de se desviar das normas de conduta estabelecidas pela Igreja), o Index dos livros proibidos, a criação da Companhia de Jesus – os jesuítas, que tinha como objetivo a expansão e o fortalecimento do catolicismo para suplantar o protestantismo, especialmente no Novo Mundo. Além dessas medidas draconianas de censura e controle das atividades das pessoas, havia ainda a reafirmação da autoridade papal, a manutenção do celibato dos padres, a criação de seminários e universidades e a eliminação de abusos sobre a concessão de indulgências.
                 
 O período da Inquisição merece um capítulo à parte, pois foi o período mais negro da história religiosa do catolicismo. No Brasil nem tanto, mas ainda assim 400 brasileiros foram condenados e 21 queimados em Lisboa. Era para lá que os casos mais graves eram enviados. Em Portugal foram 40 mil vítimas, Cerca de dois mil cidadãos foram mortos na fogueira. Na Espanha foram estimadas quase 300 mil pessoas condenadas e 30 mil executadas até a extinção do Santo Ofício, em 1834. Também foi no período da inquisição que veio para o Brasil o jesuíta padre Antônio Vieira que, em seus sermões escritos e publicados entre 1660 a 1680, disse que a mulher só deveria sair de casa apenas em três ocasiões: para o batizado, o casamento e o próprio enterro. E ele, o missionário jesuíta, foi longe em suas diatribes contra a mulher, dizendo, por exemplo, que a mulher vaidosa é a fonte de todos os males e que se houvesse espelho no Paraíso, nem teria sido necessária a maçã proibida para que de lá fossem expulsos, ela e seu companheiro Adão. Chegou a lamentar a revogação da proibição do uso de espelhos por parte das mulheres (homem podia?). Para as mulheres corajosas, como as Marias que foram ao túmulo de Jesus (os apóstolos se acovardaram e não foram), ele chega a dizer que essas “são mulheres pouco mulheres, eram mulheres varonis, eram tão homens...”.

Esse era o espírito da Inquisição e com pesada discriminação da mulher e para distinguir alguma mais valorosa, em termos de caráter e dedicação humanitária, a chamaram de “mulher varonil”. Incrível a mentalidade eclesiástica inquisitorial daquele missionário, sob o manto da “evangelização dos gentios”. O evangelizador preferiu ignorar outros ensinamentos da bíblia que eleva e enleva os atributos da Mulher, como os versículos 30 e 31, de Provérbios - 31: “A formosura é uma ilusão, e a beleza acaba, mas a mulher que teme o Senhor Deus será elogiada. Deem a ela o que merece por tudo o que faz, e que seja elogiada por todos”. Ou então que destacassem os versículos 25 e 26: “É forte, respeitada e não tem medo do futuro. Fala com sabedoria e delicadeza”. Isto sim, as afirmações de padre Vieira, constituem verdadeira heresia, a negação da doutrina divina estabelecida por Deus ao criar o ser humano. E a igreja ainda dizia que herege era Martinho Lutero....

Viva a Reforma Protestante de Martinho Lutero. Ela teve grandes e notáveis méritos, pois revolucionou o pensamento religioso. 500 Anos já se passaram!

Parabéns ao Instituto Histórico e Geográfico de Guaratinguetá pela inciativa da emissão do selo comemorativo desse importante evento histórico da humanidade.

Brasília, 14 de Outubro de 2017

Paulo das Lavras.  


sábado, 30 de setembro de 2017

50 Anos de Formatura – (1): Uma única mulher na faculdade e o assédio


Num país com 45.760 estupros registrados em 2015 e com baixíssimos índices de condenação dos culpados (o IPEA estima em mais de dez vezes esse número, passando para 527.000 estupros, só naquele ano, o que daria uma média de um estupro por minuto), não é de se admirar que a autoridade máxima do país, um político julgado e havido como personalidade culta, tenha declarado no dia especial da mulher que elas se destacam pelo papel na administração do lar. Inacreditável que ainda hoje, no ano de 2017, predomine aquela máxima medieval que lugar de mulher é na cozinha, em casa, de onde só deveria sair em três ocasiões especiais. Foi o padre Antônio Vieira que, em seus sermões escritos e publicados entre 1660 a 1680, disse que a mulher só deveria sair de casa para o batizado, o casamento e o próprio enterro. E ele, o missionário jesuíta, foi longe em suas diatribes contra a mulher, dizendo, por exemplo, que a mulher vaidosa é a fonte de todos os males e que se houvesse espelho no Paraíso, nem teria sido necessária a maçã proibida para que de lá fossem expulsos, ela e seu companheiro Adão. Chegou a lamentar a revogação da proibição do uso de espelhos por parte das mulheres (homem podia?). Para as mulheres corajosas, como as Marias que foram ao túmulo de Jesus (os apóstolos se acovardaram e não foram), ele chega a dizer que essas “são mulheres pouco mulheres, eram mulheres varonis, eram tão homens...”.

Quanto machismo nessas afirmações do padre Vieira que para distinguir alguma a chama de “mulher varonil”. Esse era, aliás, o paradigma da mulher ideal segundo a cosmovisão italiana da época. Hoje, talvez, Freud explicasse que o próprio autor dessas desastradas afirmações tivesse sofrido muito com os conflitos de sua teoria celibatária diante das índias que, supostamente, deveria evangelizar na solidão das praias da terra dos gentios. Melhor teria produzido se houvesse dedicado suas horas de solidão, de meditação, à busca das verdadeiras qualidades da mulher no campo da sabedoria. Nas próprias palavras das Sagradas Escrituras há interessantes registros sobre ações de mulheres, como aquela em que a sábia esposa Abgail, salvou de morte o seu marido insensato, falastrão e todos de seu reino que cairiam sob a espada do rei David, o qual tivera pouso e comida negados às suas tropas de passagem por ali (Samuel 1- 25). Ou, se quisesse falar sobre vaidades, deveria tomar os versículos 30 e 31, de Provérbios - 31: “A formosura é uma ilusão, e a beleza acaba, mas a mulher que teme o Senhor Deus será elogiada. Deem a ela o que merece por tudo o que faz, e que seja elogiada por todos”. Ou então que destacassem os versículos 25 e 26: “É forte, respeitada e não tem medo do futuro. Fala com sabedoria e delicadeza”.

Mas, elucubrações à parte, valem as citações introdutórias apenas para confrontar comportamentos machistas de antes, e bem antes, como os de hoje em dia, 500 ou 2.000 anos depois.... Falemos, então, dos 50 anos, o Jubileu de Ouro da formatura de Engenheiros Agrônomos, turma de 1967 da antiga Escola Superior de Agricultura de Lavras - ESAL, hoje Universidade Federal de Lavras- UFLA. Numa turma de 30 estudantes, do 1º ao 4º ano, existia apenas uma mulher, linda morena, cobiçada por 11 entre 10 rapazes. Cabelos pretos, longos, olhar firme e largo sorriso esbanjando simpatia. Nunca a vimos de mau humor ou reclamar da vida e tampouco dos colegas. Hoje, cinquenta anos depois da formatura, apresentou-se do mesmo jeito, bonita, alegre, de bem com a vida e com os antigos colegas. Impossível notar diferenças, fossem na aparência ou no pensar, no agir. E não resisti e perguntei o que teria a dizer sobre essa turma de colegas nos períodos do curso e depois de meio século de vida profissional e familiar. A resposta já era a esperada, pois fui protagonista em meio aos colegas que sempre a trataram com especial distinção e carinho. Nunca se falava ou fazia piadinhas na sua presença, nada de palavrões ou gírias e era, portanto, tratada como uma de nossas irmãs, a quem devíamos respeito e proteção contra quem se aventurasse a contrariar aquele pacto implícito de 29 colegas ao redor.

Bons tempos, disse-me ela. “Tenho saudades da ESAL, dos professores, das aulas em sala e no campo, e principalmente dos colegas que sempre me trataram com muito respeito e carinho”. Mas, e agora, hoje, aqui, meio século depois, o que acha? Melhor ainda, respondeu e emendou: “a mesma turma, os mais quietos, os mais brincalhões, os mais dedicados aos estudos, enfim, com as mesmas características e todos bem sucedidos na vida profissional e familiar”. Pura verdade! Eu mesmo tive a oportunidade de estudar/rever matérias, em sua casa e sempre saboreando, ao final, o cafezinho com quitanda servido por sua mãe, Dona Cecília Veiga, uma das melhores professoras de piano da cidade. Se havia prova bimestral daquelas matérias que ela não gostava muito (só tirava notões nas demais) era quase certo estudarmos juntos, por exemplos, a Topografia e Estradas, Construções Rurais, Hidráulica e Irrigação dentre outras. Fazíamos isto com prazer, pois ambos tínhamos a oportunidade de rever e melhor gravar na memória os conhecimentos recebidos nas aulas teóricas, nos laboratórios ou no campo.

Sempre foi uma estudante dedicada, acostumada aos primeiros lugares nos rankings, desde os tempos de colégio. A única brincadeira que nos permitíamos fazer era dizer que ela “chorava” quando esperava uma nota dez na prova e o resultado vinha 9,5 ou 9,8 e nunca abaixo de oito. Mas então não éramos nós, os guapos rapazes dos anos 1964/67, machistas? Não discriminávamos a única mulher da turma de trinta jovens e irreverentes estudantes de curso superior? Não houve nenhum que se engraçou para os lados dela ou a pediu em namoro?.... Não, não mesmo e é surpreendente, pois a tínhamos como verdadeira irmã, da família, até porque ela tinha namorado fixo (sim naqueles tempos só se considerava “namoro”, depois que o rapaz fosse conhecer os pais da garota e “declarasse” sua intenções....). Ademais, era respeitadíssima por suas qualidades intelectuais e por estar sempre nos primeiros lugares em várias matérias do curso durante os quatros anos de formação superior.

Assédio? Mas que assédio? Machismos exacerbados? Por que então começar essa crônica com longa introdução sobre estupros, machismos desde dois mil anos atrás? O dicionário Aurélio define Assédio: ... 3- comportamento desagradável ou incômodo a que alguém é sujeito repetidamente. Há outras quatro definições associadas ao termo, inclusive dizendo que é o mesmo que assédio sexual. Mas, escolhi propositadamente a de úmero três, acima, em itálico, pois nunca os colegas assediaram a única e bonita moça, companheira de classe na faculdade e de estudos em grupo. Provavelmente ela foi muito assediada durante os quatro anos de faculdade, mas exclusivamente pelos seus exemplares comportamentos social e estudioso. A primeira em tudo, simpatia, respeito, cordialidade e nas notas escolares, com inteligência privilegiada. E isso era motivo para todos a elogiarem, sempre e repetidamente, ainda hoje, o que talvez possa ser classificado como assédio positivo (se é que possa existir esta definição), pois tenho quase certeza que ela se sentia incomodada ao ouvir isso, repetidamente. Brincadeiras à parte, o que podemos afirmar, com certeza e até mesmo em razão de suas declarações, sinceras, é que nunca houve assédio algum à nossa querida colega Andirana Cardoso Veiga, desde primeiro dia de aula na faculdade até os dias de hoje. Que bom, se o mundo fosse assim, diferente daquele descrito na introdução desta crônica. Um mundo com educação de berço faz toda a diferença quando adulto, como acontecido e passado entre 29 rapazes e uma moça, no auge do vigor físico. Ali todos os colegas, indistintamente, a viam como Mulher digna de seu status feminino, que merecia, e efetivamente recebeu, o máximo respeito humano pelas suas qualidades morais e inteligência, colocando-a em igualdade profissional em meio aos seus colegas masculinos. Assim, nossa turma de 50 Anos de Formatura, marcou tento, fugindo dos atávicos clichês machistas que vêm desde os tempos bíblicos, passando pelos tempos do padre Vieira e que, infelizmente, ainda perdura com intensidade impressionante e pior, reprisada em discursos presidenciais. A mulher vale pelo que ela é e não pelo que os homens a julgam ou desejam, ainda que secretamente.

Parabéns, Andirana, parabéns colegas formandos do dia 18/12/1967, por não terem seguido o clichê machista, mesmo diante da beleza física inconteste daquela que soube ser mulher com classe, respeito e fazendo-se respeitar sem nada impor ou reclamar, mas tão somente pelas suas marcantes qualidades morais e intelectuais. Foi o que todos disseram naquela maravilhosa festa de três dias de duração do nosso Jubileu de Ouro.

Brasília-DF/Lavras-MG, 30 de setembro de 2017

Paulo das Lavras


Cinquenta anos depois da formatura na faculdade. Andirana e os colegas
Paulo Roberto, João Virgílio e Nilton Passos – Esal/Ufla - 2017


Relembrando os tempos de estudante na faculdade – 50 anos atrás, sem computador e sequer calculadora eletrônica então inexistentes. Não era tarefa fácil manusear régua de cálculo e ábacos nas planilhas de topografia, estradas, irrigação.... O jeito era estudar juntos, em grupos e compartilhar os conhecimentos. Bons tempos, dura vida de estudante que forjava bons profissionais que hoje, em festa no Jubileu de Ouro, podem celebrar o sucesso de seus esforços. Satisfação imensurável.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um encontro com o passado - Gammon

Dan Gammon e Paulo Roberto, palestrando com Samuel Rhea Gammon,
no Campus Histórico da Escola Superior de Agricultura de Lavras, fundada por ele em 1908,
 seguindo-se o modelo Land Grant College adotado pelas Escolas de Agricultura dos EUA.
Foto: Diego Nascimento


Foi em 1869 que os missionários norte-americanos Eduardo Lane e George Nash Morton fundaram o Colégio Internacional, em Campinas-SP. Em 1893 o Colégio foi transferido para Lavras-MG, devido à febre amarela que estava dizimando quase a metade da população da cidade de Campinas. Três anos antes daquela histórica transferência para Lavras um jovem missionário, Samuel Rhea Gammon, de apenas 24 anos de idade, decidiu aceitar o convite do Reverendo Eduardo Lane para vir para o Brasil. No dia 19 de novembro de 1889, seu pai reuniu a família e em oração recitou versículos da Bíblia, o Salmo 91:1, “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará”. Em seguida todos se ajoelharam e o filho missionário foi entregue aos cuidados do Senhor, ao qual ia servir em terras distantes, invocando ainda o Salmo 90:17, “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos”, conforme descreveu Clara Gammon, em Assim Brilha a Luz. Chegou ao Rio de Janeiro no natal de 1889, depois de trinta e três dias de viagem no pequeno navio Advance.

 De Campinas Sam Gammon partiu para Lavras, em março de 1892, numa primeira viagem para escolher o local de transferência do Colégio. Voltou uma segunda vez, acompanhado pelo Secretário-Executivo da Missão, Dr Houston e também pelo Dr Boyle, outro missionário que já se encontrava algum tempo no Brasil. Embora o Dr Houston tivesse aparentemente concordado com a escolha de Lavras, tentou mais tarde dissuadir o Dr Gammon de continuar com o colégio, sugerindo o encerramento das atividades educacionais para ficar apenas com a missão religiosa. Desnecessário dizer que o Dr Gammon saiu-se vitorioso com a sua missão e a mudança definitiva do colégio se deu em novembro de 1892. Aa escola foi inaugurada em Lavras, com nove alunos, em 1º de fevereiro de 1893.

A foto que abre esse texto tem um significado especial. O busto de Samuel Rhea Gammon, inaugurado em 1965, por ocasião do centenário de seu nascimento, tem ao lado seu neto, Dan Gammon, que fazia ali diante da memória seu avô, uma ligeira explanação a este autor sobre a genealogia daquele missionário, sua cidade natal, a vida na zona rural ao sul da Virgínia, seus estudos no Seminário Teológico de Farmville e sua corajosa decisão de vir para um lugar distante, terra totalmente estranha, desconhecida. A alegria de ambos os visitantes foi imensa, ao lerem a data de nascimento daquele grande benfeitor – 30/03/1865, e considerar as enormes dificuldades que enfrentou ao chegar à Lavras, aos 27 anos de idade e aqui realizar a grande obra que um dia sonhara na juventude passada aos pés das montanhas Alleghenies, na Virgínia. Venceu a peste da febre amarela, a resistência de alguns colegas missionários e confiante na promessa de seu saudoso pai naquele dia de seu embarque para o distante Brasil. As profecias bíblicas dos salmos 90 e 91, lidas por seu pai, se cumpriram: “Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia. Nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia. Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua casa”... “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos”. E assim pôde aqui realizar uma grande obra para o Senhor. Amém!

Alegramo-nos com aquele encontro comemorativo dos 148 anos de fundação do Colégio, dos quais 124 anos foram passados ali em Lavras... a Terra Prometida a Samuel Rhea Gammon, onde ele pôde frutificar o seu trabalho e mais que isto: propagar a fé em Deus. Suas obras, seu grande legado em Lavras e região, incluem igrejas, colégios e uma escola superior de agricultura (faculdade) que revolucionou a produção agrícola e pecuária do estado de Minas Gerais e hoje transformada em Universidade Federal de Lavras, que tem o grau de Excelente, conforme classificação do Ministério da Educação.

Esse nosso encontro com o passado foi muito gratificante, pois contou com a presença do neto que veio de Knoxville- TN, rever o local de suas raízes. Seu pai, Joseph Moore Gammon (1918-2007), o filho mais novo de Samuel R. Gammon e Clare Moore Gammon, nasceu e viveu em Lavras até o ano de 1938. Seus avós e alguns tios estão sepultados em Lavras. Portanto, passar dois dias com Dan Gammon e sua esposa Sandy Thomas Gammon, foi muito prazeroso, gratificante, pois realmente foi um encontro com o passado. Um passado glorioso dessa família que aqui mantêm os restos mortais de entes queridos, seus ancestrais. Aqui deixaram, também, o maior legado que alguém pode proporcionar: o amor à terra prometida de Lavras, nela plantando a semente que glorifica a Deus e promove o progresso humano. Sou particularmente grato a eles, pois minha profissão foi moldada ali, naquele Campus Histórico da ESAL/UFLA, onde está o busto de bronze mostrado na foto. Aliás, é necessário que se diga que toda comunidade de Lavras e região é grata à família Gammon.

Obrigado, Dan Gammon e Sandy Gammon por terem nos proporcionado a alegria de suas presenças, vindos de tão distante, do mesmo lugar de onde um dia o jovem Sam Gammon partiu, gastando 33 dias para chegar ao Brasil, a bordo de um pequeno navio. Embora hoje tenham gastado apenas 10 horas de voo, em confortável avião a jato, foi também uma viagem de amor, de carinho, revendo a terra que um dia acolheu seus ancestrais. Foi muito bom tê-los aqui e compartilhar o amor, o respeito e o reconhecimento à grande obra de Samuel Rhea Gammon. Parabéns pela homenagem recebida das mãos do Diretor Geral do Instituto Presbiteriano Gammnon, Prof. Alysson Massote Carvalho, também merecedor dos agradecimentos e reconhecimento pelo dinamismo que vem imprimindo à sua gestão frente aos destinos dessa importante, histórica e quase sesquicentenária casa de Ensino dedicada à Glória de Deus e ao Progresso Humano.

Que Deus continue abençoando a todos da família Gammon.

Brasília-DF/Lavras-MG, 30 de agosto de 2017

Paulo das Lavras.


Dan e Sandy Gammon, com Paulo Roberto na cerimônia de homenagens
pelos 148 anos do Instituto Presbiteriano Gammon- Lavras-MG
Foto: Diego Nascimento


O Diretor Geral do IPG, Prof. Alysson Massote Carvalho (2º da direita para
 a esquerda), com dois homenageados, Dan Gammon (1º à direita)
e João Oscar de Pádua (4º da direita para esquerda).
Foto: arquivos do IPG


... e o passado, está bem aqui, ainda presente... o primeiro trator agrícola
 de Minas Gerais, um Fordson 1923, importado por Samuel Gammon 
Foto: Diego Nascimento
 
O mesmo trator Fordson em demonstração de preparo de milho para silo
Exposição Agrícola de 1923, na Escola Agrícola de Lavras. O lema “Ensino, Pesquisa e
 Extensão Rural”, próprio dos sistema Land Grant College, foi fielmente aplicado na Esal
 de Samuel Rhea Gammon, que revolucionou a agricultura na região.
Foto: Arquivos da Esal/Ufla



Difícil fazer o motor funcionar...
Foto: Diego Nascimento



Este é um típico Land Grant College... Fiquei surpreso, quando
 trabalhando em Michigan (MSU), descobri o logo de Iowa.
Agora veja esta logomarca na foto abaixo...
Foto: Arquivos da Esal/Ufla



John Wheelock, bacharel em agronomia pelo College de Agricultura de Iowa,
foi diretor da Escola de Lavras, a convite do Dr Samuel Gammon. Nascido e graduado em Iowa,
procurou adaptar aquela logomarca para a sua escola agrícola de Lavras.
 Apenas trocou os ramos de trigo, de Iowa, pelos ramos de café de Minas Gerais.
 Fiquei feliz em descobrir isto e imediatamente solicitei ao diretor da ESAL
que se desse publicidade, pois o fato nunca fora noticiado antes, nem mesmo na ISU.
Foto: autor, 2012



John Wheelock, o 5º, sentado, da esquerda para a direita, então diretor da Esal, em foto de 1958, ano do cinquentenário da Escola. Ao fundo a logomarca da ESAL que ele criou, 20 anos antes,
 à semelhança da Escola de Agricultura de Iowa, onde se graduou. À sua direita, Bernard Barthels e à esquerda o Reitor do Instituto Presbiteriano Gammon- IPG,  Lawrence Gibson Calhoun.
Até o ano de 1963 a ESAL era um departamento do IPG, transformando-se depois
 em Universidade Federal de Lavras.
 Foto: Arquivos da ESAL/UFLA



Ao lado do Campus Histórico, fundado pelo Dr Samuel Gammon, foi construído
a partir de 1967 esse novo campus, inaugurado em 1970.
Tive o privilégio de participar dessa obra desde as demarcações  e construção das vias de            
acesso e os primeiros  prédios desse belíssimo Campus da Escola Superior de Agricultura,
mais tarde transformada em Universidade Federal de Lavras.
 Ao entrar naquele planalto, em meio à densa vegetação, abrindo clareiras e usando aparelhagem
 de topografia, lembrei-me com muito respeito e admiração da saga do Dr Gammon,
quando em 1908  planejou e construiu a Escola Agrícola de Lavras e  hoje, ampliada com esse 
magnífico campus. que abriga a universidade
Foto: DuAlto Imagens Aéreas



Imagino que Samuel Rhea Gammon ao atravessar o Rio Grande e avistar essa bela montanha, a Serra da Bocaina, que emoldura a cidade de Lavras, certamente teve a visão do cenário semelhante das montanhas Alleghenies e do Rio Holston no grande Vale Apalachia, que ele via todas as manhãs quando ia à pequena vila de Montgomery, entre Bristol e Abingdon, na Virgínia, levando leite e frutas para vender.  Clara  Gammon escreveu que ele murmurava mansamente “Os céus proclamam a Glória de Deus”.  E eu tenho quase certeza que ele ao ver a Serra da Bocaina e o Rio Grande pela primeira vez, proclamou: É aqui que Deus reservou para o meu trabalho... a terra prometida que sonhei
 todos os dias da minha juventude, na Virgínia e para isso me preparei....
 Deus estava com ele e tudo haveria de dar certo.  E as palavras de seu pai, proferidas no dia de sua partida, se cumpriram. Amém!

Foto: Arquivos de Renato Libeck


E o que vemos ao fundo da foto? A Serra da Bocaina, em bela moldura na
parede do escritório/secretaria do Auditório Lane-Morton no IPG.
Foto: Diego Nascimento


O prédio principal do IPG. Marca registrada do Dr Gammon,
com seu traço arquitetônico das colunas em estilo virginiano.
Foto: Arquivos do IPG


O automóvel que pertenceu ao Dr Gammon, um Chevrolet 1926, ao lado do Dodge Wagon
Foto: Renato Libeck



Dan Gammon consultando as anotações na escrivaninha que pertenceu ao Dr Samuel Gammon, seu avô
Foto: Sandy Gammon



Uma reverência no túmulo dos avós Samuel Rhea Gammon e Clare Moore Gammon
 e outros familiares  -  em Lavras-MG
Foto: Sandy Gammon


A cidade de Lavras, “Terra dos Ipês e das Escolas”, se revestiu, neste 25 de agosto de 2017, com as flores dos belíssimos ipês branco e amarelos para a celebração dos 148 anos do IPG. Que os familiares de Samuel Gammon, que vieram de tão longe, levem de volta para a casa a alegria da beleza dessa flores de ipê.
Foto: Danuza Santos



Os ipês amarelos da praça central da cidade, saudando as comemorações 
do Dia do Instituto Presbiteriano Gammon - Lavras-MG
Foto: Renato Libeck




domingo, 30 de julho de 2017

Minha Árvore, minhas raízes invisíveis

         Naquele ano de 1982 plantei, em frente à fachada principal da casa da chácara, duas belas mudas de pinheiro de natal, a araucaria excelsa. Algum tempo depois fotografei as crianças ao lado delas já enfeitadas nas festas natalinas. Contei a elas que aquelas duas árvores iriam crescer muito..., mais de 25 metros de altura, ficariam enormes e seriam vistas lá de longe, a uns quatro quilômetros, na parte mais alta da estrada de chegada. As árvores ficariam muito bonitas, como dois guardiões da nossa casa, como aqueles guardas da porta do Palácio do Planalto que elas, as crianças, tanto gostavam de ver. Os soldados do Batalhão de Guarda Presidencial pareciam duas estátuas, imóveis, com enormes lanças na mão. As crianças ficaram admiradas, como a imaginar quão alto aqueles pinheiros, tão pequeninos ficariam e pareciam mesmo não acreditar no que eu dizia. E ainda completei a aula, durante o plantio: vocês, crianças, também crescerão, terão filhos e eu serei vovô de cabelos brancos, velhinho. Também os passarinhos virão fazer seus ninhos nos galhos, outros apenas repousariam e cantariam em bela sinfonia de primavera. Outros, ainda, tentariam quebrar seus frutos em forma de castanha. Doces devaneios para estimular os sonhos das crianças que ali estavam ao redor, “ajudando” no plantio das duas belas árvores.

            Até os três ou quatro anos de idade daquelas árvores foi possível enfeita-las com bolas de natal, ritual que se repetia com prazer e sempre registrado em fotos. Depois não mais, em razão do enorme porte. Os passarinhos vieram como previsto, sabiás, bem-te-vis, sanhaços, asa branca - aquela enorme pomba selvagem, pardais, tico-ticos, tizius, canarinhos da terra – também conhecidos por cabecinha-de-fogo e recentemente, pela primeira vez, pasmem... um bando de tucanos do bico amarelo, também fotografados, para o deleite de toda a família que, felizmente, estava presente, numa bela manhã de sol e pode apreciar essa maravilha, tucanos do bico amarelo. Os primeiros pássaros a fazerem ninhos nos pinheiros foram os bem-te-vis. Bem tecido e ancorado, o ninho prestou-se várias vezes ao acasalamento e consequente revoada de filhotes. Tempos depois, ninguém poderia imaginar que aqueles dois pequenos passarinhos “entortaram” o tronco do pinheiro. Como? Ah... conte outra..., disseram alguns incrédulos. Mas a verdade é que o tronco entortado ainda está lá, de pé, mais de trinta anos depois. Mas, como pode um pequeno passarinho entortar o tronco de uma enorme árvore como aquela? Simples, explicava eu aos incrédulos. O ninho, bem volumoso e fortemente entrelaçado aos galhos, encharcava-se com as chuvas e tornava-se excessivamente pesado, vergando o tronco da jovem árvore. Tempos depois, ao olhar para cima notava-se, naquele gigante de mais de vinte e cinco metros de altura, um desvio acentuado assemelhando-se a um ligeiro “S”, logo acima da metade do grosso tronco. Os visitantes ficavam intrigados, difícil acreditar que aquilo fora obra de um pequeno passarinho, o bem- te vi.

            Os mais assíduos nidificadores naqueles dois pinheiros foram as pombas selvagens, conhecidas por asa branca ou ainda pomba trocal (um pouco maior e mais graciosa que a juriti). Não raras vezes seus ovos caiam, pois nunca vi ninho tão mal feito, pequeno e ralo. Tão ralo que se podiam ver os ovos quando se olhava por baixo. O simples ato de sair do ninho, um pouco mais apressada, já fazia com que os ovos ou mesmo os filhotinhos caíssem ao chão. Tivemos algum trabalho em recolar esses filhotes. Certa feita, já grandinhos, caídos, cuidamos deles. Ficaram domesticados e não saíam da cozinha, ou quando muito davam uma volta, voavam até alguma árvore e voltavam para comer na mão e até passeavam no ombro ou na cabeça do caseiro que foi o principal cuidador. Certa vez meu irmão se deixou fotografar com elas se alimentando em suas mãos. Pagou maior mico em praça, pois levei as fotos e as exibi aos seus amigos, inventando, antes, que um “velho feiticeiro” passara em minha chácara e demonstrou seus poderes de fazer com que aves selvagens o obedecessem, vindo se alimentar em suas mãos e ainda conversar com ele. Contava a história, fazia mistério e em seguida mostrava as fotos... gozação geral para cima do suposto “feiticeiro”.

             A maior surpresa foi mesmo a passagem do bando de seis tucanos do bico amarelo. Pousaram no pinheiro, atacaram os frutos, grunhiram bastante (alguém conhece o canto dos tucanos? Não é bonito, mais parece um grunhido) e depois de uns dois minutos revoaram, não sem antes de serem registrados em fotos, ainda que com o celular sem muito alcance. Visitantes menos desejados eram os gaviões carcarás, prontos para atacar os filhotes de bem-te-vi e pomba trocal. Sempre atentos aos escândalos das brigas entre predadores e ameaçados, cuidávamos de espantar os intrusos rapineiros com simples assobios ou bate-palmas e assim salvar os filhotes em seus ninhos.

            O tempo passou e tudo aconteceu como previ para os filhos. Eles cresceram, tiveram filhos que hoje já estão com seis e sete anos, a alegria do vovô de cabelos encanecidos, mas com a alma jovem, a correr com eles pelos quatro cantos da chácara, jogar bola, pescar, nadar, cavalgar, soltar pipas ou ainda voar com aeromodelos de aviões e helicópteros. Por seu lado as árvores cresceram, antes enfeitadas no natal, depois as sombras e principalmente a beleza natural, avistada de longe como um marco do território. Abrigos e celeiros, para os passarinhos que se alimentam de seus frutos silvestres, ninhos, brigas entre eles, cantorias sem fim, muitos filhotes. Dois desses filhotes resolveram transitar e voar pela cozinha e varanda, passear de carona no ombro ou na cabeça das pessoas.... Maravilhas da natureza que nos levam a desejar sempre estar ali, embora só usufruíssemos desse paraíso nos finais de semana.

 Mas, a mesma natureza que nos proporcionou tudo isso, também nos tomou de assalto uma daquelas belas árvores. Um raio fulminante descarregou-se sobre ela. Como não estava presente, não notei o estrago nos primeiros dias. Semana seguinte havia leve descoloração na ponteira do pinheiro. Noutra semana um pouco mais. Numa meticulosa inspeção constatei o pior. Tinha sido uma descarga atmosférica ocorrida durante uma tempestade, então confirmada pelo caseiro. Na esperança de que o estrago pudesse ser superado, não a sacrifiquei. Doía-me a alma cortar uma árvore ferida, de quase dois metros de circunferência e mais de 25 metros de altura. Haveria de se recuperar. Mas, infelizmente, depois de uns cinco meses estava totalmente seca e os vendavais com as chuvas de verão já haviam decepado seu terço superior. Não me restou alternativa senão contratar especialistas para abatê-la por completo. Verdadeiro golpe na alma. Ali jazia quem nos alegrara por tanto tempo..., exatos 32 anos. Definitivamente isto não estava nos planos.

            Retirados os escombros restou um vazio, cenário mutilado, deixando-nos um buraco na alma. Só mesmo quem está acostumado com a natureza e as belezas de um jardim, sabe entender e avaliar esse sentimento. Parece que os pés da gente têm raízes invisíveis, disse certa vez um renomado paisagista. E essa raízes invisíveis nos “plantam” no chão e fazem com que nos identifiquemos com as plantas de nossos jardins. E raízes precisam de cuidado, de amor. Jardins também. Plantar árvores e flores é colher felicidade, pois até mesmo uma simples árvore plantada é um anúncio de esperança. Especialmente se for uma árvore de crescimento lento, pois plantamos sabendo que talvez nem iremos comer dos seus frutos ou sentar à sua frondosa sombra… Plantamos pensando naqueles que comerão de seus frutos e se sentarão à sua sombra. E isso bastará para nos trazer felicidade. E neste caso, do pinheiro de natal, ao contrário colhi tudo isso e muito mais. Era uma árvore que “falava”. Falava? Sim pela sua beleza pelos pássaros que nela se abrigavam e se alimentavam, cantavam e alegravam o ambiente. Seria loucura ouvir as árvores, os jardins? Que nada, até Guimarães Rosa os ouvia: “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu – constantes trazem recados”.

            Mas e a tristeza pela perda de uma árvore? Bem..., é normal o sentimento de perda. Para começar, tratava-se de uma belíssima árvore, plantada e cuidada com zelo e ao final desfrutando de tudo que ela proporcionava, até mesmo como moldura natural da casa. Paisagem prontamente identificada pelos netinhos, ainda na estrada, bem distante, ou até mesmo em fotos aéreas. Não se pode esquecer que ao plantar um jardim nele depositamos a felicidade dos tempos de infância e das alegrias passadas como se fosse uma busca do tempo perdido. Assim, ele carrega uma elevada e forte carga emocional, além do gosto na escolha das espécies de flores, árvores e demais complementos paisagísticos. Mas, isto é diferente da melancolia, aquela que só chora as alegrias perdidas, sem esperança de que elas possam ser recriadas. E a propósito, vejam que belo poema, de Angelus Silésius:
                “Se, no teu centro um Paraíso não puderes encontrar, não existe chance alguma de, algum dia, nele entrar”.

            Os jardins são nossos Paraísos. Fazemos parte da natureza. As flores são como as crianças, trazem amor e vida e têm o poder de desarmar, emocionar as pessoas. E como as crianças, trazem-nos a lembrança da renovação da vida. Criei meu jardim e já recriei a árvore perdida. Se da primeira vez as filhas ajudaram a plantar e cuidar, desta vez os netinhos a replantaram e estão cuidando da nova árvore, no mesmo lugar. Esperança que se renova, nos velhos e nas crianças que aliás, andam no mesmo compasso, como disse nosso poeta maior, Rubem Alves.

Assim é a vida. Acabou a tristeza, renasceu a esperança com a nova árvore ali replantada. Não foi a toa que Proust disse que:  "os verdadeiros paraísos são os que perdemos"    e o poeta Mário Quintana ensinou que  "a gente continua morando na velha casa em que nasceu".

 Para quem nasceu e cresceu em meio à natureza, na zona rural e na chácara ao redor da cidade, faz sentido.  Paraíso sempre!
Plante um jardim, faça seu próprio paraíso e more nele.


Brasília, 05 de abril de 2015

Paulo das Lavras


O replantio de um pinheiro de natal. A segunda geração
cuidando  de recuperar a grande perda. Plantar uma árvore
é renovar as esperanças  -  2014


O pinheiro que servia para decoração de natal. Simone e
o menino do caseiro – dez 1984


A imponência dos dois pinheiros, vista de cima,
como torres de vigia da casa, 20 anos depois 


As majestosas “torres de vigia” vistas por trás da casa


Os pinheiros serviam de abrigo dos pássaros. Filhotes de pomba trocal (asa branca)
caíam do ninho. Na foto uma dessas, já adulta, criada em casa,
vinha comer na mão do visitante e na hora do lanche voava até à cozinha 


Qualquer que fosse o visitante e se estivesse com comida na mão,
lá ia a “Titinha” pedir a sua parte. Hora do almoço e lanhe, na varanda
 ou churrasqueira,  sempre tínhamos sua companhia.Viveu mais de
15 anos assim, voava do alto dos pinheiros e buscava a companhia das pessoas



Numa tempestade de verão um raio fulminou um dos pinheiros 


O operário com sua motosserra. Ao colocá-lo abaixo, também “cortou” meu coração...


...que viu ser abatido o gigante de mais de 25 m de altura e 32 anos de idade,


...deixando dois grandes vazios, na paisagem e na alma que teve suas
 raízes  invisíveis também cortadas
  

Restou apenas o irmão gêmeo...um gigante solitário também maltratado pela tempestade


..mas, as crianças da geração seguinte cuidaram, com muito carinho, de replantar outro pinheiro de natal,
recompondo o nosso “paraíso” que foi devastado por uma tempestade


... e um ano depois já estava com dois metros de altura – janeiro de 2015


Minhas raízes invisíveis se estendem, entre tantas árvores que plantei, pelos pés de peras cujas frutas, em
abundância, balançam sobre o tapete rosa do ipê em plena florada de julho


... e também por muitos canteiros de flores, cujas raízes embora frágeis,
 em relação ao vigoroso tronco da mangueira em primeiro plano à esquerda da foto,
 todas elas fortalecem as raízes invisíveis de minha alma, nascida, criada e
formada na agronomia, em meio à plena natureza.